Pensatempos

Orlando Figueiredo


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(re)Inventado a pólvora

Joseph Needham (1900-1995)

Joseph Needham (1900-1995) foi um cientista, historiador e sinólogo britânico, que ficou conhecido pelos estudos sobre a ciência chinesa e a sua história. Uma das mais importantes consequências do trabalho de Needham foi a desmistificação do eurocentrismo e do mito de que a ciência e os seus métodos são apanágio exclusivo da superioridade da mente europeia. O cientista refutou a origem mitológica da trilogia de inventos – imprensa, bússola e pólvora – usualmente atribuídos ao génio europeu, e mostrou que estes haviam sido inventados e usados pelos chineses antes de surgirem no contexto das sociedades europeias. Em relação à pólvora, por exemplo, Needham refere que no século IX já existiam fórmulas alquímicas chinesas para a sua preparação e que no século XII os chineses já conseguiam produzir explosivos fiáveis.

Em resposta ao seu discurso herético sobre a superioridade da cultura europeia e a sua primazia no desenvolvimento científico, os seus colegas historiadores reclamaram que a ciência chinesa não era nem superior nem anterior à europeia. Tomando como exemplo a pólvora, argumentaram que os chineses apenas a usaram para fogos de artificio e para o trabalho nas minas; porém, foi a superioridade intelectual europeia que lhe deu outros usos e inventou as armas de fogo. Continuar a ler


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Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural

Texto publicado na revista Biosofia – n.º 42 – verão/outono 2013 (pp. 44-52)

Biosofia42

Biosofia é a revista do Centro Lusitano de Unificação Cultural
www.centrolusitano.org

Figueiredo, O. (2013). Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural. Biosofia, (42), 44-52.

(Os números entre < > indicam que o texto subsequente se encontra na página da revista com esse número).

<44>

As últimas décadas do século XX, animadas em boa parte pelos novos saberes de uma ciência sistémica, viram emergir uma mundividência holística, questionadora dos pressupostos hegemónicos que reificam o mundo não humano e alienam a espécie humana das suas origens. Além dos desenvolvimentos do conhecimento científico, outras formas de olhar mundo, como é o caso do pensamento budista ou do movimento ecologia profunda, miscigenam-se ao pensamento ocidental e contribuem para a emergência de novos paradigmas, que questionam as formas organizadoras instaladas. Esta reflexão propõe a desconstrução da centralidade antrópica, através de uma análise histórica vista a partir do interior do pensamento ocidental e do contributo de outras formas de olhar e pensar o mundo, e aponta caminhos para a edificação de uma sociedade mais igualitária, onde indivíduos, espécies e ecossistemas sejam reconhecidos como entidades de pleno direito com quem partilhamos o Universo e não como objetos utilitários que apenas servem para satisfazer os caprichos humanos. Ironicamente, parece ser necessário rejeitar o antropocentrismo para salvar a humanidade de si mesma. Continuar a ler


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Revista da OEI celebra 50 anos da publicação do livro de Thomas Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

O número de janeiro de 2013 da Revista Ibero-americana de Ciência Tecnologia e Sociedade, publicada pela Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura – OEI, celebra o cinquentenário da publicação do livro de Thomas Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas”, a mais conhecida e revolucionária obra do autor que, pela primeira vez na história da ciência moderna, sublinha a importância da dimensão externalista nos processos de construção e validação do conhecimento científico.

The Structure of Scientific Revolution” – nome original do livro publicado em 1962 pela University of Chicago Press – refuta, definitivamente, as pretensões da ciência ser capaz de construir teorias iterativamente verdadeiras, bem como as ideias empiro-positivistas que defendem a validade do conhecimento científico em função do método de descoberta; foi Kuhn quem trouxe a Ciência para o domínio do construtivismo social. 50 anos depois, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, a que o New York Times atribuiu a classificação de um dos 100 livros mais influentes do século XX, continua atual e pertinente e recomenda-se a sua leitura, em especial àqueles que educam em ciência. A obra foi traduzida para português pela editora Guerra e Paz.

Como refere Carina Cortassa na apresentação deste número da revista CTS, Kuhn foi, simultaneamente, o último dos clássicos e o primeiro dos revolucionários  na leitura que fez da ciência.