Pensatempos

Orlando Figueiredo


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Por uma política educativa racional

O discurso da estabilidade nas políticas educativas é recorrente sempre que se muda de governo. Lá vem outro governo e tudo muda. E sim! Tem razão, quem assim contesta! De facto, na história da democracia portuguesa, esta situação tem sido uma constante. A alternância de governos entre laranjas (com variadas tonalidades de azule frequentes toques dourados) e rosas (agora um pouco mais avermelhados) sempre conduziu ao desenvolvimento de políticas educativas antagónicas, o que dificulta o estabelecimento de uma política consensual no campo educativo.

É claro que ambos os lados têm responsabilidades neste âmbito – tanto quanto eu saiba, nunca houve qualquer tentativa, por parte de qualquer partido político, de promover o diálogo e as negociações neste domínio da governação – o mesmo não se pode dizer de outros domínios governativos, como, por exemplo, o acordo com a troika ou a implementação de uma austeridade generalizada aos, já economicamente fragilizados, cidadãos portugueses. De facto, os únicos domínios da governação em que o PS e o PSD têm mostrado capacidade negocial são os da economia, na sua versão mais agressiva e desrespeitadora dos direitos de quem, com ou sem voz, os elege – naturalmente, que esta situação deixa muitos, tal como eu, com pouco espaço de manobra para apoiar os programas do PS, onde encontro, como é o caso da educação, um maior número de afinidades e reflexos (talvez as coisas estejam agora a mudar). Continuar a ler


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Diálogos com alunos/as

Ontem, num diálogo:

Aluno/a [13 anos] – Hoje vamos ver outro filme na aula de […].

Orlando [47 anos] – Vocês veem muitos filmes na aula de […], não veem?

A – Sim. Vemos filmes e discutimos coisas que não interessam a ninguém.

O – [a tirar nabos da púcara] – Ai sim?! Então o que discutem?

A – Olhe, estivemos a discutir se as raparigas árabes das escolas belgas devem (ou não) ser proibidas de usar véu.

O [à procura de mais nabos] – Ai sim. E por que achas que isso não tem interesse?

A [já um pouco irritado/a] – Olhe, porque apenas o facto de estarmos a discutir isto é já uma falta de respeito para com essas raparigas. Cada um veste-se e usa o que quer, e ninguém tem nada a ver com isso.

O [com um colo cheio de nabos, um sorriso rasgado de orelha a orelha e a esperança no futuro renovada] – Muito bem. Gostei do que ouvi. Estou inteiramente de acordo contigo.


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Manuais escolares de ciências físicas e naturais do oitavo ano de escolaridade:uma perspetiva em ação

O meu projeto de doutoramento constou de dois estudos de caso correspondentes a um manual escolar de Físico-Química e outro de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade. A principal finalidade foi compreender que discurso é veiculado pelos dois manuais escolares em relação a três dimensões de análise: (1) Natureza da ciência; (2) Paradigmas ecológicos e (3) Conceções de ensino e aprendizagem.

O construtivismo é o paradigma teórico subjacente a todos os aspetos deste estudo. Tomado como teoria explicativa das construções discursivas capazes de gerar realidades sociais distintas, como paradigma educativo, como justificativo metodológico e como espaço de emergência de uma crítica ideológica e social. É no âmbito das possibilidades deste quadro teórico que o trabalho foi desenvolvido.

Para alcançar os objetivos da investigação, procedi à construção de uma heurística multifocal inspirada na perspetiva do investigador e nas vozes dos diferentes participantes referentes à sua interpretação localizada do manual escolar. Socorri-me de uma metodologia de índole interpretativa; à hermenêutica das construções textuais do manual escolar, acrescentei a hermenêutica dos professores, alunos e autores procurando uma diversidade de olhares capazes de fazerem emergir no meu espírito ideias e sugestões que não alcançaria num processo monológico. Numa análise sintética final, discuti a articulação dos diferentes discursos no âmbito das três dimensões de análise, da relação entre manuais escolares e na sua relação com a escola e a sociedade.

Os resultados evidenciam que os manuais escolares são veículos de perpetuação dos discursos hegemónicos instalados e contribuem, de forma significativa, para a reprodução das relações de poder e de dominação internas e externas (sobre o mundo não humano) das sociedades humanas. A ciência surge associada a imagéticas tradicionais e tida como uma soteriologia capaz de resolver a generalidade dos problemas ecológicos. As conceções de ensino e aprendizagem mostram-se tradicionais e contribuem para o fortalecimento das tipologias discursivas referidas.

A tese está disponível em http://hdl.handle.net/10451/10524


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Cratinismo não é projeto nem ideologia, é preconceito.

O cratinismo não é um projeto educativo, não é uma ideologia e, certamente, não é uma política; é um preconceito! Não é um projeto educativo porque nunca estabeleceu objetivos e, consequentemente, não traçou caminhos para os atingir; não é uma ideologia, porque não mostra quaisquer ideais (nem sequer ideias) do que deverá ser um projeto educativo nacional e do que se pretende da escola de hoje; e não é uma política porque, ao invés de contribuir para a organização da pólis, apenas tem contribuído para o aumento da entropia num setor já de si problemático e com muito trabalho (que se deseja construtivo) pela frente. O cratinismo é somente o preconceito (cretino) de uma pessoa que há mais de uma década se opõe, de forma infundada, à abordagem científica das questões pedagógicas e didáticas. O movimento cratino (sim, tem adeptos e são igualmente ignorantes) não é novidade; simplesmente agora assumiu dimensões nacionais.

O movimento cratino assenta no preconceito de que as pedagogias construtivistas são intrinsecamente más e fonte de todos os problemas educativos. Como todo o preconceito, o cratinismo desvirtua a realidade e adapta-a à sua leitura. Há já vários anos – mesmo anterior à publicação do grande exemplar de lixo literário que é O “Eduquês” em Discurso Directo, da autoria do atual ministro da educação – que os cratinos defendem que a responsabilidade pelo insucesso escolar é do facilitismo (termo que os professores adoraram e adotaram) das abordagens construtivistas ao ensino. Esta posição não passa de uma falácia desonesta justificada por dois motivos: primeiro, porque as práticas construtivistas, fruto de uma cultura de escola tradicional e expositiva, nunca chegaram à sala de aula; e segundo, porque a investigação (nacional e internacional) no âmbito da educação aponta exatamente o sentido contrário. Os cratinos, porém, nunca deixaram de acusar a base construtivista do Currículo Nacional do Ensino Básico e dos Programas e Orientações Curriculares para as ciências e a matemática como sendo a responsável pelos problemas educativos em Portugal nestas áreas, quer no Ensino Básico quer no Ensino Secundário. Continuar a ler


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Ken Robinson: Como escapar ao Vale da Morte educacional

O verdadeiro papel de liderança na educação — e penso que isto é verdade a nível nacional, a nível estatal, a nível de escola — não é e não deve ser o comando e controlo. O verdadeiro papel da liderança é o controlo do clima, criando um clima de possibilidades. E se o fizerem, as pessoas vão estar à altura e vão atingir coisas que não antecipavam e não podiam esperar.


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Professores, manifestações, greves e exames: afinal o que queremos da escola?

A manifestação de professores que ontem ocorreu (e na qual participei) reuniu cerca de 50 000 professores, desceu a Avenida da Liberdade do Marquês até aos Restauradores e foi notícia de abertura de telejornais em todos os canais generalistas. A polémica está no ar com o país dividido entre os que compreendem e apoiam os professores apesar dos possíveis problemas associados a realização de exames na próxima segunda-feira e os que demonizam os professores (e demais funcionários públicos) e os consideram culpados de todos os males do mundo. Tristemente, subjacente a todos estes discursos, está a demagogia e a hipocrisia de quem está, sobretudo, preocupado não com a educação dos portugueses, mas com a sua certificação. A data escolhida pelos sindicatos dos professores para fazer greve foi inteligentemente cirúrgica. Greve às avaliações e aos exames é uma forma mediática de luta que gera entropia suficiente nas escolas para deixar Crato com os cabelos em pé.

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Sebastianismos

Santana Castilho é o novo D. Sebastião dos professores. Oportunista e demagogo, como sempre foi, os seus escritos deixam transparecer mais o ressentimento de a sua pessoa ter sido preterida a favor do Cratino atual ministro, que uma preocupação honesta e sincera com uma educação pública, crítica e livre. Deem-lhe oportunidade e terão uma deceção tão grande quanto a que o Crato trouxe com os seus argumentos falaciosos do rigor e da exigência.
Como diz Henry Giroux, só teremos uma educação de excelência quando todos os professores forem intelectuais críticos. Para isso, é preciso dominarem as ferramentas próprias da sua profissão; antes disso, teremos apenas proletários assalariados que papagueiam acriticamente saberes desajustados e anacrónicos da nossa realidade.
Como disse o poeta, “É a hora!”. É a hora de os professores se emanciparem. Peguemos nos livros de pedagogia crítica, de construtivismo, de história e sociologia da educação e façamos desta epistemologia o senso-comum dos profissionais da educação.
Se o Portugal de hoje é nevoeiro, dissipemo-lo por via da cultura e da intelectualidade. Em que outra profissão pode isto ser mais verdade?

Chega de sebastianismo. Mãos à obra!

Santana Castilho