Pensatempos

Orlando Figueiredo


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Manuais escolares de ciências físicas e naturais do oitavo ano de escolaridade:uma perspetiva em ação

O meu projeto de doutoramento constou de dois estudos de caso correspondentes a um manual escolar de Físico-Química e outro de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade. A principal finalidade foi compreender que discurso é veiculado pelos dois manuais escolares em relação a três dimensões de análise: (1) Natureza da ciência; (2) Paradigmas ecológicos e (3) Conceções de ensino e aprendizagem.

O construtivismo é o paradigma teórico subjacente a todos os aspetos deste estudo. Tomado como teoria explicativa das construções discursivas capazes de gerar realidades sociais distintas, como paradigma educativo, como justificativo metodológico e como espaço de emergência de uma crítica ideológica e social. É no âmbito das possibilidades deste quadro teórico que o trabalho foi desenvolvido.

Para alcançar os objetivos da investigação, procedi à construção de uma heurística multifocal inspirada na perspetiva do investigador e nas vozes dos diferentes participantes referentes à sua interpretação localizada do manual escolar. Socorri-me de uma metodologia de índole interpretativa; à hermenêutica das construções textuais do manual escolar, acrescentei a hermenêutica dos professores, alunos e autores procurando uma diversidade de olhares capazes de fazerem emergir no meu espírito ideias e sugestões que não alcançaria num processo monológico. Numa análise sintética final, discuti a articulação dos diferentes discursos no âmbito das três dimensões de análise, da relação entre manuais escolares e na sua relação com a escola e a sociedade.

Os resultados evidenciam que os manuais escolares são veículos de perpetuação dos discursos hegemónicos instalados e contribuem, de forma significativa, para a reprodução das relações de poder e de dominação internas e externas (sobre o mundo não humano) das sociedades humanas. A ciência surge associada a imagéticas tradicionais e tida como uma soteriologia capaz de resolver a generalidade dos problemas ecológicos. As conceções de ensino e aprendizagem mostram-se tradicionais e contribuem para o fortalecimento das tipologias discursivas referidas.

A tese está disponível em http://hdl.handle.net/10451/10524


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Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural

Texto publicado na revista Biosofia – n.º 42 – verão/outono 2013 (pp. 44-52)

Biosofia42

Biosofia é a revista do Centro Lusitano de Unificação Cultural
www.centrolusitano.org

Figueiredo, O. (2013). Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural. Biosofia, (42), 44-52.

(Os números entre < > indicam que o texto subsequente se encontra na página da revista com esse número).

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As últimas décadas do século XX, animadas em boa parte pelos novos saberes de uma ciência sistémica, viram emergir uma mundividência holística, questionadora dos pressupostos hegemónicos que reificam o mundo não humano e alienam a espécie humana das suas origens. Além dos desenvolvimentos do conhecimento científico, outras formas de olhar mundo, como é o caso do pensamento budista ou do movimento ecologia profunda, miscigenam-se ao pensamento ocidental e contribuem para a emergência de novos paradigmas, que questionam as formas organizadoras instaladas. Esta reflexão propõe a desconstrução da centralidade antrópica, através de uma análise histórica vista a partir do interior do pensamento ocidental e do contributo de outras formas de olhar e pensar o mundo, e aponta caminhos para a edificação de uma sociedade mais igualitária, onde indivíduos, espécies e ecossistemas sejam reconhecidos como entidades de pleno direito com quem partilhamos o Universo e não como objetos utilitários que apenas servem para satisfazer os caprichos humanos. Ironicamente, parece ser necessário rejeitar o antropocentrismo para salvar a humanidade de si mesma. Continuar a ler


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Ken Robinson: Como escapar ao Vale da Morte educacional

O verdadeiro papel de liderança na educação — e penso que isto é verdade a nível nacional, a nível estatal, a nível de escola — não é e não deve ser o comando e controlo. O verdadeiro papel da liderança é o controlo do clima, criando um clima de possibilidades. E se o fizerem, as pessoas vão estar à altura e vão atingir coisas que não antecipavam e não podiam esperar.


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Construtivismo crítico, de Joe Kincheloe

Os professores que têm acesso à teoria construtivista crítica, por exemplo, são capacitados para colocar questões tipicamente ignoradas acerca dos propósitos sociopolíticos do ensino. Num contexto teórico crítico, podem discernir mais claramente o modo como a educação opera para reproduzir ou desafiar as estruturas sociopolíticas e económicas dominantes. Entendimentos teóricos desta natureza são profundamente importantes em termos de aprender a pensar, a ensinar, e a viver democraticamente. O propósito educativo não pode ser dissociado da justiça social, libertação humana [e animal], autodireção, resistência à regulação, edificação da comunidade, formas mais profundas de interligação humana e luta pela liberdade. Quando os educadores fracassam na aquisição destes quadros teóricos, as escolas tornam-se, inexoravelmente, máquinas de seleção para a nova ordem cooperativa […]. Sem tais modos informados de atribuição de significados, as escolas tendem a reforçar as estruturas patriarcais, práticas educativas eurocêntricas, a homofobia […], o racismo [e o especismo]. A luta pela alma da educação na América do Norte [, assim como na Europa e em Portugal,] está a ser travada no caminho que se perfila ante de nós. O construtivismo crítico ajuda-nos a compreender os passos que aqueles que manuseiam o poder dominante definiram para criar um sistema educativo que beneficia os mais privilegiados em detrimento daqueles que são marginalizados  por questões de raça, classe, género e sexualidade.

In Kincheloe, J. L. (2006). Construtivismo crítico. Mangualde: Edições Pedago. (p. 18).


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1.º Seminário Internacional Pensamento Crítico na Educação

O Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” (CIDTFF) da Universidade de Aveiro vai realizar o primeiro seminário sobre pensamento Pensamento Crítico na Educação em Ciência.

Descarregar o cartaz

A finalidade deste seminário é: analisar e discutir a investigação e formação que tem sido realizada sobre o Pensamento Crítico em Portugal e outros países; estabelecer uma agenda de investigação e formação na área; construir uma rede de investigadores e formadores sobre o Pensamento Crítico na Educação.

Visitar o website

São destinatários deste seminário todos os que têm realizado investigação, formação ou pretendem iniciar ou aprofundar a reflexão ou investigação sobre o Pensamento Crítico na Educação: docentes, professores/educadores, formadores e investigadores de todos os ciclos de ensino (do Pré-escolar ao Ensino Superior), e de áreas disciplinares diferentes, como as Línguas, as Ciências Naturais e Físico-Químicas.

Visitar o website da Rede Pensamento Crítico


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Código postal

Pedagogia críticaLos Angeles é a capital dos sem-abrigo dos Estados Unidos. Em L. A., em qualquer noite, 50.000 a 80.000 pessoas passam a noite nas ruas do condado. Em raras ocasiões, no café, podemos ver um sem abrigo sentado ao lado de um actor, que reconhecemos mas não nos conseguimos lembrar do nome, a discutir o estado da economia. Muito provavelmente, veremos um espetáculo de riqueza. É impossível não reparar que Los Angeles é uma cidade de pessoas que têm e que gostam de mostrar uma enorme riqueza. De facto, Los Angeles, tem mais agregados familiares com rendimentos altos do que qualquer outro sitio nos Estados Unidos. Na parte mais luxuosa da cidade – Beverly Hills – o código postal é 91210. Oitenta por cento dos habitantes na área deste código são brancos. Uma das áreas mais abalada pela pobreza de Los Angelea é South Central. O código postal é 90059. Quarenta e oito por cento da população abrangida por este código postal é afro-americana e cinquenta e um por cento são latinos. Para aqueles que labutam nas fábricas ilegais em Eastside, ou que tentam sobreviver às perigosas ruas de South Central, até para alguns dos locais do café da Sunset Boulevard, as promessas feitas pelo capitalismo à maioria dos Americanos parece remota, quase surreal. É difícil explicar a muitos dos jovens que vivem na área do código postal 90059 que a história deles não está pré-determinada, ou que pode mudar de direção. Mas que direção a história deles deveria tomar? A direção de um código postal 91210? Ou a direção de um novo universo social onde os códigos postais já não servem de linhas de demarcação que separam as pessoas com base na sua classe social ou raça?

É nestas avenidas de sonhos desfeitos e ruas de desespero que a pedagogia crítica pode fazer a diferença, que a história pode mudar radicalmente a sua direção, que o começo revolucionário pode criar raízes. E onde se pode ganhar uma nova sociedade livre dos constrangimentos da antiga.

In McLaren, P. (2007). Pedagogia crítica contra o império. Mangualde: Pedago, (pp. 95-6).


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Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica

Figueiredo, O. (2012). Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica. Paideia: Revista de Cultura e Ciência (3). pp. 15-28.


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Globalização! O chavão da nossa Era! O desenvolvimento científico do Iluminismo Europeu iniciou uma revolução epistémica sem precedentes. Para o bem e para o mal as sociedades industriais desenvolveram-se e, no final do século XX, a tecnologia reduziu o planeta ao intervalo de tempo infinitesimal. O século XXI coloca os nossos semelhantes do outro lado do mundo à distância de um clique e o consumo de produtos exóticos a, apenas, algumas semanas de viagem. Sustentadas por uma economia termodinâmica, as sociedades transacionam bens físicos e culturais a uma velocidade que não tem precedentes na antropohistória e, ainda menos, na geohistória. Esta é, talvez, a faceta mais conhecida da Globalização; contudo, nesta aldeia  global (perdoem-me o lugar-comum) e multicultural novos problemas emergem e assumem, eles próprios, uma dimensão universal. A mesma tecnociência que assegura o desenvolvimento desta relação universal, simultaneamente, constrói saberes — diagnósticos e prognósticos — que questionam a sua possibilidade, pelo menos nos moldes em que se tem vindo a desenvolver. Continuar a ler