Pensatempos

Orlando Figueiredo


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Manifesto dos 70 ou como construir a casa a partir do telhado

Original, publicado no dia 21 de março no website do PAN, disponível aqui.

A semana passada um conjunto de 70 personalidades da vida pública portuguesa apresentou um polémico bloco de medidas que visam a reestruturação da dívida e apelidaram-no de Manifesto dos 70. Porém, não tenho grandes dúvidas de que se trata de mais uma ilusão a que os seus signatários se entregam. Ilusão, não por causa da necessidade de reestruturação da dívida – essa é evidente e urgente -, ou pela natureza das medidas propostas – essas são interessantes e pertinentes -, mas porque continuam a apostar na utopia do crescimento indefinido da economia.

Frases como esta “Nenhuma estratégia de combate à crise poderá ter êxito se não conciliar a resposta à questão da dívida com a efetivação de um robusto processo de crescimento económico”, que abre o manifesto, repetem-se nove vezes ao longo das pouco mais de 2000 palavras do texto. É para mim evidente que a dívida tem de ser reestruturada (ou mesmo não ser paga – que ética existe em sujeitar uma população à penúria para pagar uma dívida contraída a bancos que produzem dinheiro a partir do nada?); se mais nenhuma evidência tivesse, bastar-me-ia olhar para o estado do país. Contudo, de que serve reestruturar a dívida se vamos voltar a cair na falácia do crescimento económico e da competitividade, elementos de organização social que não promovem nem o bem-estar das populações, nem a salvaguarda dos ecossistemas onde estas se inserem.

A crise não é portuguesa, é sistémica e não é financeira, é ecosocial. Sistémica porque assume contornos planetários; eco porque resulta do anunciado colapso da estrutura física do planeta perante o consumo desmedido das sociedades industrializadas alimentadas pelo absurdo do crescimento económico ad infinitum – o recurso aos combustíveis fósseis é cada vez mais caro e mais poluente, a poluição continua a aumentar, as mudanças climáticas já estão a mostrar as suas consequências e as assimetrias sociais continuam a agravar-se; e social, porque resulta das inadequadas organizações estruturais económicas que estimulam a especulação, o consumismo e a criação de dinheiro a partir do nada através da contração de dívida por parte de todos os setores económicos (público, empresarial e particular) das sociedade modernas. Continuar a ler


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Manuais escolares de ciências físicas e naturais do oitavo ano de escolaridade:uma perspetiva em ação

O meu projeto de doutoramento constou de dois estudos de caso correspondentes a um manual escolar de Físico-Química e outro de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade. A principal finalidade foi compreender que discurso é veiculado pelos dois manuais escolares em relação a três dimensões de análise: (1) Natureza da ciência; (2) Paradigmas ecológicos e (3) Conceções de ensino e aprendizagem.

O construtivismo é o paradigma teórico subjacente a todos os aspetos deste estudo. Tomado como teoria explicativa das construções discursivas capazes de gerar realidades sociais distintas, como paradigma educativo, como justificativo metodológico e como espaço de emergência de uma crítica ideológica e social. É no âmbito das possibilidades deste quadro teórico que o trabalho foi desenvolvido.

Para alcançar os objetivos da investigação, procedi à construção de uma heurística multifocal inspirada na perspetiva do investigador e nas vozes dos diferentes participantes referentes à sua interpretação localizada do manual escolar. Socorri-me de uma metodologia de índole interpretativa; à hermenêutica das construções textuais do manual escolar, acrescentei a hermenêutica dos professores, alunos e autores procurando uma diversidade de olhares capazes de fazerem emergir no meu espírito ideias e sugestões que não alcançaria num processo monológico. Numa análise sintética final, discuti a articulação dos diferentes discursos no âmbito das três dimensões de análise, da relação entre manuais escolares e na sua relação com a escola e a sociedade.

Os resultados evidenciam que os manuais escolares são veículos de perpetuação dos discursos hegemónicos instalados e contribuem, de forma significativa, para a reprodução das relações de poder e de dominação internas e externas (sobre o mundo não humano) das sociedades humanas. A ciência surge associada a imagéticas tradicionais e tida como uma soteriologia capaz de resolver a generalidade dos problemas ecológicos. As conceções de ensino e aprendizagem mostram-se tradicionais e contribuem para o fortalecimento das tipologias discursivas referidas.

A tese está disponível em http://hdl.handle.net/10451/10524


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Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural

Texto publicado na revista Biosofia – n.º 42 – verão/outono 2013 (pp. 44-52)

Biosofia42

Biosofia é a revista do Centro Lusitano de Unificação Cultural
www.centrolusitano.org

Figueiredo, O. (2013). Ecologia e espiritualidade: do contrato social ao contrato natural. Biosofia, (42), 44-52.

(Os números entre < > indicam que o texto subsequente se encontra na página da revista com esse número).

<44>

As últimas décadas do século XX, animadas em boa parte pelos novos saberes de uma ciência sistémica, viram emergir uma mundividência holística, questionadora dos pressupostos hegemónicos que reificam o mundo não humano e alienam a espécie humana das suas origens. Além dos desenvolvimentos do conhecimento científico, outras formas de olhar mundo, como é o caso do pensamento budista ou do movimento ecologia profunda, miscigenam-se ao pensamento ocidental e contribuem para a emergência de novos paradigmas, que questionam as formas organizadoras instaladas. Esta reflexão propõe a desconstrução da centralidade antrópica, através de uma análise histórica vista a partir do interior do pensamento ocidental e do contributo de outras formas de olhar e pensar o mundo, e aponta caminhos para a edificação de uma sociedade mais igualitária, onde indivíduos, espécies e ecossistemas sejam reconhecidos como entidades de pleno direito com quem partilhamos o Universo e não como objetos utilitários que apenas servem para satisfazer os caprichos humanos. Ironicamente, parece ser necessário rejeitar o antropocentrismo para salvar a humanidade de si mesma. Continuar a ler


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Portugal Terra

A Associação Internacional para a Documentação da Natureza – Aid Nature – é uma ONG Ambiental sem fins lucrativos, criada em Março de 2011 e cujos objetivos são produzir e divulgar documentários sobre a natureza de Portugal, dar a conhecer o património natural de Portugal​ e também dos países membros da CPLP.​​ Através dos documentários, vídeos e fotografias a missão da aid Nature é divulgar esta realidade nem sempre visível junto do maior número possível de pessoas para que discutam, critiquem e admirem a extraordinária beleza natural de Portugal. É preciso conhecer para proteger e valorizar.

Os responsáveis e fundadores deste projeto são o António Castelo e o Pedro Vasconcelos que tem produzido documentários de uma beleza rara.

O vídeo, de título Portugal Terra, mostra alguns momentos mágicos que as lentes da AidNature têm fotografado desde 2011. Uma viagem por alguns dos extraordinários encantos de Portugal.
Para apreciar o filme no seu melhor clique no botão expandir e no símbolo HD. Ficará com a tela preenchida por um vídeo em alta definição.


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Solstício

O solstício de Verão é o momento, no movimento aparente anual da esfera celeste, em que o Sol atinge a altura angular máxima, medida a partir da linha do equador. Celebrado pela grande maioria das tradições pagãs e xamânicas ao longo dos vários milénios da existência humana, é também conhecido por Litha na tradição celta. No hemisfério norte celebra-se por volta do dia 21 de junho e no hemisfério sul por volta de 21 de dezembro.
Este ano, no hemisfério norte, as celebrações do solstício de verão conduziram cerca de 21 000 pessoas às pedras anciãs de Stonehange para verem nascer o Sol no dia mais longo do ano. É um regresso à espiritualidade da Terra, à Pacha Mama dos Quíchua, à Gäia dos Gregos ancestrais, à Bhūmī-Devī da Índia hindu (ou do hindustão, como os indianos preferem dizer), à Erecura celta, à Ceridwen galesa, à Vénus de Willendorf…

O regresso à celebração do feminino em falta neste mundo patriarcal.

As fotos (há mais aqui) testemunham um festival espontâneo ligado à simplicidade e à frugalidade de quem comunga com as suas origens e está liberto da moralidade castradora e hipócrita das celebrações mais tradicionais.

É a celebração da liberdade.

De repente…

tudo é livre,

tudo é excelente,

tudo é perfeito!

***


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Vale do Tua – Um ecossistema em perigo iminente

O vale do Tua é um ecossistema ribeirinho único na Europa, que neste momento está ameaçado pela construção da barragem, colocando em risco o Douro Vinhateiro – Património Mundial da Humanidade. Neste documentário produzido pela Aid Nature, teremos a oportunidade de ver imagens inéditas das espécies que habitam neste ecossistema único na Europa e paisagens deslumbrantes. Participe!

www.pan.com.pt/valedotua.