Pensatempos

Orlando Figueiredo


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Manuais escolares de ciências físicas e naturais do oitavo ano de escolaridade:uma perspetiva em ação

O meu projeto de doutoramento constou de dois estudos de caso correspondentes a um manual escolar de Físico-Química e outro de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade. A principal finalidade foi compreender que discurso é veiculado pelos dois manuais escolares em relação a três dimensões de análise: (1) Natureza da ciência; (2) Paradigmas ecológicos e (3) Conceções de ensino e aprendizagem.

O construtivismo é o paradigma teórico subjacente a todos os aspetos deste estudo. Tomado como teoria explicativa das construções discursivas capazes de gerar realidades sociais distintas, como paradigma educativo, como justificativo metodológico e como espaço de emergência de uma crítica ideológica e social. É no âmbito das possibilidades deste quadro teórico que o trabalho foi desenvolvido.

Para alcançar os objetivos da investigação, procedi à construção de uma heurística multifocal inspirada na perspetiva do investigador e nas vozes dos diferentes participantes referentes à sua interpretação localizada do manual escolar. Socorri-me de uma metodologia de índole interpretativa; à hermenêutica das construções textuais do manual escolar, acrescentei a hermenêutica dos professores, alunos e autores procurando uma diversidade de olhares capazes de fazerem emergir no meu espírito ideias e sugestões que não alcançaria num processo monológico. Numa análise sintética final, discuti a articulação dos diferentes discursos no âmbito das três dimensões de análise, da relação entre manuais escolares e na sua relação com a escola e a sociedade.

Os resultados evidenciam que os manuais escolares são veículos de perpetuação dos discursos hegemónicos instalados e contribuem, de forma significativa, para a reprodução das relações de poder e de dominação internas e externas (sobre o mundo não humano) das sociedades humanas. A ciência surge associada a imagéticas tradicionais e tida como uma soteriologia capaz de resolver a generalidade dos problemas ecológicos. As conceções de ensino e aprendizagem mostram-se tradicionais e contribuem para o fortalecimento das tipologias discursivas referidas.

A tese está disponível em http://hdl.handle.net/10451/10524


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(re)Inventado a pólvora

Joseph Needham (1900-1995)

Joseph Needham (1900-1995) foi um cientista, historiador e sinólogo britânico, que ficou conhecido pelos estudos sobre a ciência chinesa e a sua história. Uma das mais importantes consequências do trabalho de Needham foi a desmistificação do eurocentrismo e do mito de que a ciência e os seus métodos são apanágio exclusivo da superioridade da mente europeia. O cientista refutou a origem mitológica da trilogia de inventos – imprensa, bússola e pólvora – usualmente atribuídos ao génio europeu, e mostrou que estes haviam sido inventados e usados pelos chineses antes de surgirem no contexto das sociedades europeias. Em relação à pólvora, por exemplo, Needham refere que no século IX já existiam fórmulas alquímicas chinesas para a sua preparação e que no século XII os chineses já conseguiam produzir explosivos fiáveis.

Em resposta ao seu discurso herético sobre a superioridade da cultura europeia e a sua primazia no desenvolvimento científico, os seus colegas historiadores reclamaram que a ciência chinesa não era nem superior nem anterior à europeia. Tomando como exemplo a pólvora, argumentaram que os chineses apenas a usaram para fogos de artificio e para o trabalho nas minas; porém, foi a superioridade intelectual europeia que lhe deu outros usos e inventou as armas de fogo. Continuar a ler


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Eurocentrismo (Science: a four thounsand year history, de Patricia Fara)

Science: A four thousand year history

Until very recently, Eurocentrism dominated Anglo-American history of science. In wishful thinking versions of the past, science leads to Absolute Truth and moreover, it started in Europe. Now that the entire globe is electronically interlinked, science is seen as the summit of human achievement and the outcome of American/European genius, Such self-congratulation takes little account of the possibility that other cultures may have chosen other approaches to life not because their finest scholars were stupid, but because they had different opinions about what is important. In any case, more science does not necessarily produce better answers. After World War II, optimists declared that science would unify the world because – unlike religious faiths – its truth transcended national boundaries. Yet although the scientific enterprise may be global in its sweep, it has clearly failed to fulfil sanguine promises either of bringing peace or of deciphering nature’s deepest secrets.

In Fara, P. (2009). Science: A four thousand years history. Oxford: Oxford University Press. (p. 43-44).

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Duas das muitas razões subjacentes a esta visão enviesada da ciência que ainda prevalece em muitos círculos do mundo académico, mas também do mundo empresarial e industrial, são: Continuar a ler


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Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica

Figueiredo, O. (2012). Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica. Paideia: Revista de Cultura e Ciência (3). pp. 15-28.


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Globalização! O chavão da nossa Era! O desenvolvimento científico do Iluminismo Europeu iniciou uma revolução epistémica sem precedentes. Para o bem e para o mal as sociedades industriais desenvolveram-se e, no final do século XX, a tecnologia reduziu o planeta ao intervalo de tempo infinitesimal. O século XXI coloca os nossos semelhantes do outro lado do mundo à distância de um clique e o consumo de produtos exóticos a, apenas, algumas semanas de viagem. Sustentadas por uma economia termodinâmica, as sociedades transacionam bens físicos e culturais a uma velocidade que não tem precedentes na antropohistória e, ainda menos, na geohistória. Esta é, talvez, a faceta mais conhecida da Globalização; contudo, nesta aldeia  global (perdoem-me o lugar-comum) e multicultural novos problemas emergem e assumem, eles próprios, uma dimensão universal. A mesma tecnociência que assegura o desenvolvimento desta relação universal, simultaneamente, constrói saberes — diagnósticos e prognósticos — que questionam a sua possibilidade, pelo menos nos moldes em que se tem vindo a desenvolver. Continuar a ler


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Revista da OEI celebra 50 anos da publicação do livro de Thomas Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

O número de janeiro de 2013 da Revista Ibero-americana de Ciência Tecnologia e Sociedade, publicada pela Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura – OEI, celebra o cinquentenário da publicação do livro de Thomas Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas”, a mais conhecida e revolucionária obra do autor que, pela primeira vez na história da ciência moderna, sublinha a importância da dimensão externalista nos processos de construção e validação do conhecimento científico.

The Structure of Scientific Revolution” – nome original do livro publicado em 1962 pela University of Chicago Press – refuta, definitivamente, as pretensões da ciência ser capaz de construir teorias iterativamente verdadeiras, bem como as ideias empiro-positivistas que defendem a validade do conhecimento científico em função do método de descoberta; foi Kuhn quem trouxe a Ciência para o domínio do construtivismo social. 50 anos depois, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, a que o New York Times atribuiu a classificação de um dos 100 livros mais influentes do século XX, continua atual e pertinente e recomenda-se a sua leitura, em especial àqueles que educam em ciência. A obra foi traduzida para português pela editora Guerra e Paz.

Como refere Carina Cortassa na apresentação deste número da revista CTS, Kuhn foi, simultaneamente, o último dos clássicos e o primeiro dos revolucionários  na leitura que fez da ciência.


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A ciência como linguagem de partilha com os outros (humanos e não humanos)

Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo. Mas eu preferia ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilha com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagens. Entendermos e partilharmos a língua das árvores, os silenciosos códigos das pedras e dos astros.
Conhecermos não para sermos donos, mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilharmos este universo. Para escutarmos histórias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas.

Mia Couto


Excerto do texto Uma palavra de conselho e um conselho sem palavras elaborado para crianças lusófonas integradas no programa interescolar Ciência Viva, em Julho de 2004 e publicado, em Abril de 2005, no livro da autoria de Mia Couto, Pensatempos: textos de opinião pela editorial Caminho.