Pensatempos

Orlando Figueiredo


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Do direito ao voto ao direito à voz – “Against Elections”, o mais recente livro de David van Reybrouck

Against Elections: The Case for Democracy

Against Elections: The Case for Democracy

David van Reybrouck é um escritor belga, flamengo, com uma vasta obra publicada no domínio da poesia da prosa, teatro, ensaio político e histórico. Um dos seus mais recentes livros, traduzido para inglês com o nome Against Elections: The case for Democracy, discute a crise da democracia, as suas origens e apresenta diversas propostas de soluções. Estruturado em sete capítulos, I – Sintomas; II – Diagnóstico; III – Patogénese e IV – Remédios, van Reybrouck identifica a crise da legitimidade e a crise da eficiência como os principais problemas da crise da democracia.

David Van Reybrouck

David van Reybrouck, autor de Against Elections

Ao longo do livro, Reybrouck desmonta o processo eleitoral, como método de perpetuação de uma aristocracia política que apenas difere da aristocracia tradicional por não se vincular à hereditariedade. O autor mostra como, após as revoluções americana e francesa, feitas pelo povo, o poder foi tomado por uma elite economicamente favorecida que instaura as eleições como forma de perpetuação do seu poder. Afastados das urnas durante séculos, foram as lutas de classe e de género que reclamaram para as classes governadas o direito ao acesso às urnas.

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Not all cultures are equally valuable

Versão portuguesa: Nem todas as culturas são iguais

In his book entitled “The Moral Landscape”, Sam Harris, a staunch defender of atheism and part of a movement known as New Atheism, discuss and criticises the politically correct cultural relativism. Harris argues that there are cultures that cause suffering while others promote well-being. In consequence, they must be differently valued. The Landscape from the title concerns the hilly 3D graphics showing the well-being achieved as the dependent variable and the cultural background of diverse societies as the independent one. Highest hills represent, of course, societies that were capable of achieving better well-being. He also recognises the subjectivity of the term well-being. However, as a neuroscientist, he also proposes methods of measuring it objectively, namely using the concentration of happiness related molecules in our brains.
The recent events in Brussels airport and in the metro station of Maelbeek show, unfortunately once again, how right Sam Harris is. Many will affirm that this is not Islam; they’ll bespeak Islam as a peaceful religion, and claim radicalism as the cause of terrorist attacks, not Islam. And they’re right. I do believe there are plenty Muslims that do not agree with daesh ways. However, Islam, like all other Abrahamic religions, is a misogynist, male chauvinist society, and a homophobic and xenophobe culture. If self-entitled Muslims, like most self –entitled Christians and Jews, defend peace and human rights, it is not because of their religion, but in spite of it. In fact, it needs a really flexible interpretation to discern the “Old Testament”, the “Tora” or the “Coran”, as texts of peace. I am also convinced most of these people are Muslims, Christians or Jews because they were educated in that culture, and never had the opportunity of making a critical reading of their religion books.
It is time to stop with the politically correct discourse that all cultures are equally good and valuable. Individuals must be always treated as persons, and have their will respected within the boundaries of democracy, by all, laic or religious, cultures. But, cultures and ideas must be strongly criticised and, if that is the case, denounced.
After all I still prefer Belgium to Saudi Arabia, and it is not just because women can freely drive in the former.


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Eurocentrismo (Science: a four thounsand year history, de Patricia Fara)

Science: A four thousand year history

Until very recently, Eurocentrism dominated Anglo-American history of science. In wishful thinking versions of the past, science leads to Absolute Truth and moreover, it started in Europe. Now that the entire globe is electronically interlinked, science is seen as the summit of human achievement and the outcome of American/European genius, Such self-congratulation takes little account of the possibility that other cultures may have chosen other approaches to life not because their finest scholars were stupid, but because they had different opinions about what is important. In any case, more science does not necessarily produce better answers. After World War II, optimists declared that science would unify the world because – unlike religious faiths – its truth transcended national boundaries. Yet although the scientific enterprise may be global in its sweep, it has clearly failed to fulfil sanguine promises either of bringing peace or of deciphering nature’s deepest secrets.

In Fara, P. (2009). Science: A four thousand years history. Oxford: Oxford University Press. (p. 43-44).

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Duas das muitas razões subjacentes a esta visão enviesada da ciência que ainda prevalece em muitos círculos do mundo académico, mas também do mundo empresarial e industrial, são: Continuar a ler


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Construtivismo crítico, de Joe Kincheloe

Os professores que têm acesso à teoria construtivista crítica, por exemplo, são capacitados para colocar questões tipicamente ignoradas acerca dos propósitos sociopolíticos do ensino. Num contexto teórico crítico, podem discernir mais claramente o modo como a educação opera para reproduzir ou desafiar as estruturas sociopolíticas e económicas dominantes. Entendimentos teóricos desta natureza são profundamente importantes em termos de aprender a pensar, a ensinar, e a viver democraticamente. O propósito educativo não pode ser dissociado da justiça social, libertação humana [e animal], autodireção, resistência à regulação, edificação da comunidade, formas mais profundas de interligação humana e luta pela liberdade. Quando os educadores fracassam na aquisição destes quadros teóricos, as escolas tornam-se, inexoravelmente, máquinas de seleção para a nova ordem cooperativa […]. Sem tais modos informados de atribuição de significados, as escolas tendem a reforçar as estruturas patriarcais, práticas educativas eurocêntricas, a homofobia […], o racismo [e o especismo]. A luta pela alma da educação na América do Norte [, assim como na Europa e em Portugal,] está a ser travada no caminho que se perfila ante de nós. O construtivismo crítico ajuda-nos a compreender os passos que aqueles que manuseiam o poder dominante definiram para criar um sistema educativo que beneficia os mais privilegiados em detrimento daqueles que são marginalizados  por questões de raça, classe, género e sexualidade.

In Kincheloe, J. L. (2006). Construtivismo crítico. Mangualde: Edições Pedago. (p. 18).


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Código postal

Pedagogia críticaLos Angeles é a capital dos sem-abrigo dos Estados Unidos. Em L. A., em qualquer noite, 50.000 a 80.000 pessoas passam a noite nas ruas do condado. Em raras ocasiões, no café, podemos ver um sem abrigo sentado ao lado de um actor, que reconhecemos mas não nos conseguimos lembrar do nome, a discutir o estado da economia. Muito provavelmente, veremos um espetáculo de riqueza. É impossível não reparar que Los Angeles é uma cidade de pessoas que têm e que gostam de mostrar uma enorme riqueza. De facto, Los Angeles, tem mais agregados familiares com rendimentos altos do que qualquer outro sitio nos Estados Unidos. Na parte mais luxuosa da cidade – Beverly Hills – o código postal é 91210. Oitenta por cento dos habitantes na área deste código são brancos. Uma das áreas mais abalada pela pobreza de Los Angelea é South Central. O código postal é 90059. Quarenta e oito por cento da população abrangida por este código postal é afro-americana e cinquenta e um por cento são latinos. Para aqueles que labutam nas fábricas ilegais em Eastside, ou que tentam sobreviver às perigosas ruas de South Central, até para alguns dos locais do café da Sunset Boulevard, as promessas feitas pelo capitalismo à maioria dos Americanos parece remota, quase surreal. É difícil explicar a muitos dos jovens que vivem na área do código postal 90059 que a história deles não está pré-determinada, ou que pode mudar de direção. Mas que direção a história deles deveria tomar? A direção de um código postal 91210? Ou a direção de um novo universo social onde os códigos postais já não servem de linhas de demarcação que separam as pessoas com base na sua classe social ou raça?

É nestas avenidas de sonhos desfeitos e ruas de desespero que a pedagogia crítica pode fazer a diferença, que a história pode mudar radicalmente a sua direção, que o começo revolucionário pode criar raízes. E onde se pode ganhar uma nova sociedade livre dos constrangimentos da antiga.

In McLaren, P. (2007). Pedagogia crítica contra o império. Mangualde: Pedago, (pp. 95-6).


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A cela

Excerto de uma carta de Nelson Mandela a Winnie Mandela escrita na prisão de Kroonstad, datada de 1 de Fevereiro de 1975.

In Mandela, N. (2010). Nelson Mandela: arquivo íntimo. Lisboa: Objectiva. (pp. 211-2).


… a cela é o lugar ideal para nos conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos. Ao avaliarmos a nossa evolução enquanto indivíduos tendemos a concentrar-nos em factores externos como a posição social, o poder de influência e a popularidade, a riqueza e o nível de instrução. Estes são, de facto, factores importantes para a avaliação do sucesso individual no que se refere a aspectos materiais e é perfeitamente compreensível que muitas pessoas se empenhem em alcançá-los. Existem no entanto factores internos que podem ser ainda mais decisivos na avaliação de uma pessoa enquanto ser humano: a honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros – qualidades ao alcance de todas as almas – constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós. A evolução em matérias desta natureza é impensável sem uma introspecção séria, sem nos conhecermos a nós próprios, sem conhecermos as nossas fraquezas e os nossos erros. No mínimo, se não nos der mais nada, a cela proporciona-nos a oportunidade de  analisarmos todos os dias a nossa conduta na sua globalidade, de ultrapassarmos o que mau houver em nós e desenvolvermos o que possamos ter de bom. A meditação frequente, nem que seja durante 15 minutos por dia antes de adormecer, pode ser muito proveitosa a este respeito. No início pode parecer-nos difícil identificar os aspectos negativos da nossa vida, mas com perseverança este exercício poderá revelar-se altamente compensador. Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar.


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A ciência como linguagem de partilha com os outros (humanos e não humanos)

Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo. Mas eu preferia ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilha com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagens. Entendermos e partilharmos a língua das árvores, os silenciosos códigos das pedras e dos astros.
Conhecermos não para sermos donos, mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilharmos este universo. Para escutarmos histórias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas.

Mia Couto


Excerto do texto Uma palavra de conselho e um conselho sem palavras elaborado para crianças lusófonas integradas no programa interescolar Ciência Viva, em Julho de 2004 e publicado, em Abril de 2005, no livro da autoria de Mia Couto, Pensatempos: textos de opinião pela editorial Caminho.