Pensatempos

Orlando Figueiredo

Democratização Monetária – Parte 1

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A economia da dívida: diagnóstico

Imagine que havia instalado na sua cave ou garagem uma máquina de imprimir notas. Imagine, também, que punha essas notas a circular sem qualquer problema de reconhecimento da sua autenticidade. Dir-se-ia que estava a produzir dinheiro a partir do nada. O que aconteceria? Provavelmente teria uma visita pouco simpática das autoridades, a impressora apreendida, o esquema desmantelado e algum tempo a passar na cadeia. Porém, é precisamente isto que os bancos fazem quando criam empréstimos. Criam dinheiro a partir do nada e colocam-no em circulação. A diferença é que o fazem impunemente.

Não! Não produzem notas em impressoras furtivas instaladas em recônditas caves. A banca cria dinheiro a partir do nada através da emissão de dívida a privados, empresas e estados, cobrando, aos devedores, uma renda (juros) enquanto a dívida não for saldada. Paga-se, assim, por um bem que não existia antes de a dívida ser contraída. Esta situação conduz à deslocação de riqueza dos setores sociais mais desfavorecidos para os mais ricos o que confere um caráter obsceno a todo o processo.

O método é surpreendentemente simples.

A maior parte do dinheiro em circulação existe apenas na forma de números num sistema informático. Ainda que a maior parte dos cidadãos continue a olhar para o dinheiro como “dinheiro vivo” (notas e moedas), essa é uma ideia errónea da conjetura social atual. Evidências desta realidade resultam não apenas do facto de usarmos, progressivamente, menos “dinheiro vivo” e mais dinheiro eletrónico no dia-a-dia, mas, sobretudo, porque as transações de montantes avultados se fazem de modo exclusivamente eletrónico (quantas vezes se pagam carros ou casas em “dinheiro vivo”?).

Tomemos o exemplo de um empréstimo bancário para a compra de carro ou casa, no caso de um particular; para expandir um negócio, no caso de uma empresa; ou para construir uma nova ponte, no caso de um estado. A ideia comummente aceite é a de que um banco comercial empresta o dinheiro que os depositantes lhe confiaram. O processo é (aparentemente) simples e linear, como mostra a figura abaixo, que é, porém, falsa.

Democratização Monetária

Esta ideia dúbia, de que os bancos se limitam a emprestar o dinheiro que lhes foi confiado pelos depositantes e a cobrar juros por isso, é comummente aceite e frequentemente ensinada nas cadeiras teóricas das faculdades de economia um pouco por todo o mundo. Mas este está longe de ser o modus operandi das instituições bancárias comerciais.

Na realidade, sempre que um banco procede a um novo empréstimo, o banco cria dinheiro ex-nihilum, dinheiro que não existia antes do mutuário solicitar o empréstimo ao banco. Sempre que um mutuário pede um empréstimo ao banco, esse valor é acrescentado na folha de passivos do banco e, simultaneamente, à folha de ativos. A primeira folha dá conta das saídas monetárias e a segunda das entradas, sejam elas feitas sobre a forma de depósito ou pela emissão de dívida. O balanço global é nulo, mas há novo dinheiro em circulação que não havia antes da contratação do empréstimo. O banco cria, assim, dinheiro, moeda eletrónica, e faz-se pagar por isso.

Esta situação é ainda mais peculiar na medida em que bancos nacionais, como o Banco de Inglaterra ou o Banco Central Europeu, não cobram quaisquer interesses pela criação e colocação em circulação do dinheiro – os bancos privados são pagos para se imiscuírem numa competência exclusiva dos bancos nacionais. A questão ética torna-se manifesta. Contudo, a ética está longe de ser o maior problema de todo o processo. Dado que o dinheiro colocado em circulação resulta da criação de dívida, o sistema económico atual só sobrevive com a continua emissão de dívida (a particulares, privados e estados). Saldar as dívidas aos bancos é acabar com o dinheiro em circulação.

O Reino Unido tem desenvolvido uma forte investigação nesta área, como atestam os artigos Money creation in a modern economy : an introduction e Money creation in a modern economy, ambos emitido pelo Banco de Inglaterra. De facto, este mesmo banco afirma, no pre-release de um artigo do seu boletim trimestral datado de 14 de março de 2014, o seguinte:

“Where does money come from?   In the modern economy, most money takes the form of bank deposits. But how those bank deposits are created is often misunderstood. The principal way in which they are created is through commercial banks making loans: whenever a bank makes a loan, it creates a deposit in the borrower’s bank account, thereby creating new money. As ‘Money creation in the modern economy’ explains, though, banks cannot create money in this way without limit: how much banks lend will rest on the profitable lending opportunities available to them which will, crucially, depend on the interest rate set by the Bank of England.  In this way, monetary policy acts as the ultimate limit on money creation. This description of how money is created differs from the story found in some economics textbooks.”

No Reino Unido, a criação de dinheiro pelos bancos ascende a 97% do dinheiro em circulação na sociedade. O dinheiro produzido pelo Banco de Inglaterra – notas e moedas – é apenas 3% do dinheiro usado pela sociedade britânica. Em consequência, o valor dos juros por empréstimo contraídos (que no caso do Reino Unido ascende a 200 000 milhões de libras anuais) é dinheiro transferido diretamente do setor público (leia-se, particulares, empresas ou estados) para o setor financeiro, nomeadamente a alta finança.

Os mutuários veem-se obrigados a continuar a aumentar as suas receitas para pagar os interesses à (da) banca. A banca retira dividendos a partir do empréstimo de um bem que esta não detinha. Além do mais, se se mantiver este sistema (esquema) financeiro, a dívida jamais poderá ser saldada. Dado que 97% (no caso do RU) do dinheiro em circulação se deve à emissão de dívida, se todas as dívidas fossem saldadas deixaria de haver dinheiro na sociedade (as duas folhas de passivo e ativo dos bancos continuariam a zero, mas não havia dinheiro a circular). Como todo o processo é exclusivamente eletrónico, o montante saldado é subtraído às folhas de ativos e passivos do banco, fazendo desaparecer o dinheiro que havia sido criado aquando da emissão da dívida.

Ao contrário do que se pode pensar numa primeira análise, sempre que se salda uma dívida ao banco, este perde ativo e ganha passivo, isto é, perde dinheiro. Se as dívidas bancárias fossem saldadas, o sistema económico atual colapsaria. Como, a cada dia são saldadas várias dívidas bancárias, é necessário manter o apelo ao endividamento (de particulares, empresas e estados), para produzir moeda (eletrónica) que garanta um fornecimento de dinheiro à sociedade.

Mas haverá, então, solução para o problema? A resposta é sim. E a boa notícia é que pode ser implementada ao nível de uma zona económica ou de um país. Pode ser implementada no Reino Unido ou na Suíça, por exemplo, porque estes países tem um sistema monetário independente, mas também pode ser aplicada ao nível da zona euro. Esta última situação exige acordo entre todos os países que a constituem; aparentemente, um país que assinou o tratado monetário, só o poderá implementar as soluções de democratização monetária de forma independente se abandonar a moeda comum.


Próximo artigo sobre Democratização Monetária: “A economia da dívida: surgimento e implementação”. A publicar em breve neste blogue.

Também disponível em A Semente do Diabo.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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