Pensatempos

Orlando Figueiredo

A hesitação do Reino Unido perante a União Europeia

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O “Brexit”, British exit (da União Europeia), está na ordem do dia por toda a Europa. O cenário é complexo. Se as recentes negociações entre David Cameron e o Conselho Europeu, levadas a cabo em Bruxelas, terminaram com o celebrativo Twitter de Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu:

a realidade é que o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia está marcado para junho. David Cameron tem quatro meses para convencer os britânicos que ficar é a melhor opção. A questão é fraturante, tanto do lado dos conservadores como do lado dos trabalhistas. As opiniões dividem-se e ambos os lados possuem apoiantes da permanência e da saída. David Cameron, primeiro-ministro e líder do partido conservador, decidiu fazer campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia, porém, Michael Gove, ministro da justiça do governo presidido por Cameron, já declarou publicamente que vai fazer campanha pelo “Brexit”.

É claro que o Reino Unido pretende contrapartidas económicas. David Cameron utilizou o referendo como arma, para conseguir os acordos que pretendia junto do Conselho Europeu, e consegui-o. premier-britanico-david-cameron201602192311135986_rtsAté num dos pontos mais difíceis de acordar – a questão do pagamento dos abonos de família aos filhos de emigrantes que fiquem no país de origem –, o primeiro-ministro britânico conseguiu acordo vantajoso por parte do Conselho Europeu, apesar de não ter sido nos moldes exatos pretendidos. Cameron pretendia que a suspensão do pagamento dos abonos de família fosse feita de imediato para todos os casos, mas acabou por ceder. A suspensão aplica-se desde já aos novos emigrantes, mas os atuais usufruidores só verão a medida aplicada a partir de 2020. Esta é um resultado altamente vantajosa para o Reino Unido.

Há, porém, uma dimensão mais gravosa de toda a situação, e localiza-se a norte: a Escócia. Tradicionalmente pró-europeus, os escoceses estão profundamente desagradados pela forma como o governo do Reino Unido está a organizar o referendo. Nicola Sturgeon, líder do Scotish National Party, que conseguiu um estrondoso suporte aquando do referendo de 2013 sobre a independência da Escócia, opõe-se à realização de um referendo a nível do Reino Unido. Sturgeon defende que a Escócia, Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte deveriam votar separadamente e que a saída da União Europeia estaria dependente de um “Brexit” unânime dos quatro países. Assim, uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia poderá dar uma nova energia às pretensões independentistas da Escócia. No referendo de setembro de 2013, o “não” à independência ganhou por uma margem de 10,60 % – 55,30 % dos escoceses manifestou-se a favor da permanência da Escócia na União Europeia, contra 44,70 % que preferem uma Escócia independente. Perante uma alteração tão radical das políticas externas britânicas, é possível que o rácio se altere e a Escócia opte por uma saída do Reino Unido e uma adesão do país à União Europeia.

O Reino Unido vive agora a hesitação da União Europeia. Poderá, talvez, ler-se, nas pretensões conservadoras do abandono, a ilusão da manutenção de um Império que se desfez há mais de meio século. Império que se bastaria para permitir um Reino Unido sem Europa. Mas o império já se demoliu e é bom que os britânicos tomem consciência disso. O preço de não o fazerem é o de um Reino que já não é Império e que corre o risco de não mais ser Unido.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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