Pensatempos

Orlando Figueiredo

Cratinismo não é projeto nem ideologia, é preconceito.

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O cratinismo não é um projeto educativo, não é uma ideologia e, certamente, não é uma política; é um preconceito! Não é um projeto educativo porque nunca estabeleceu objetivos e, consequentemente, não traçou caminhos para os atingir; não é uma ideologia, porque não mostra quaisquer ideais (nem sequer ideias) do que deverá ser um projeto educativo nacional e do que se pretende da escola de hoje; e não é uma política porque, ao invés de contribuir para a organização da pólis, apenas tem contribuído para o aumento da entropia num setor já de si problemático e com muito trabalho (que se deseja construtivo) pela frente. O cratinismo é somente o preconceito (cretino) de uma pessoa que há mais de uma década se opõe, de forma infundada, à abordagem científica das questões pedagógicas e didáticas. O movimento cratino (sim, tem adeptos e são igualmente ignorantes) não é novidade; simplesmente agora assumiu dimensões nacionais.

O movimento cratino assenta no preconceito de que as pedagogias construtivistas são intrinsecamente más e fonte de todos os problemas educativos. Como todo o preconceito, o cratinismo desvirtua a realidade e adapta-a à sua leitura. Há já vários anos – mesmo anterior à publicação do grande exemplar de lixo literário que é O “Eduquês” em Discurso Directo, da autoria do atual ministro da educação – que os cratinos defendem que a responsabilidade pelo insucesso escolar é do facilitismo (termo que os professores adoraram e adotaram) das abordagens construtivistas ao ensino. Esta posição não passa de uma falácia desonesta justificada por dois motivos: primeiro, porque as práticas construtivistas, fruto de uma cultura de escola tradicional e expositiva, nunca chegaram à sala de aula; e segundo, porque a investigação (nacional e internacional) no âmbito da educação aponta exatamente o sentido contrário. Os cratinos, porém, nunca deixaram de acusar a base construtivista do Currículo Nacional do Ensino Básico e dos Programas e Orientações Curriculares para as ciências e a matemática como sendo a responsável pelos problemas educativos em Portugal nestas áreas, quer no Ensino Básico quer no Ensino Secundário.

O preconceito cratino instalou-se e disseminou-se tendo sido, em tempos, acarinhado por uma boa parte dos docentes. O discurso do facilitismo vinha justificar algo que a grande maioria dos professores não conseguiu (e continua sem conseguir) fazer – mudar as suas práticas letivas e adaptá-las às necessidades de um sociedade do século XXI. Os defensores do discurso do facilitismo, entre os quais se encontram os ex e atuais cratinos, afirmaram com frequência que o Estado apenas se preocupava em passar alunos para fazer boa figura no contexto europeu e ter umas estatísticas que indiciassem população letrada. Sempre que se questiona a eficácia das retenções, lá vinha a conversa costumeira do facilitismo. Se eles não chumbam, como é que se hão de se esforçar?, era o argumento. Ao defenderem esta posição, os professores desprofissionalizam-se, abandonam a sua função de educadores e transformam-se em figuras tão sinistras como os “mandadores de alta finança” que, como afirma Zeca Afonso no poema Índios da Meia Praia, “fazem tudo andar para trás [porque] dizem que o mundo só anda tendo à frente um capataz”. De facto, países com melhores desempenhos em estudos comparativos internacionais como o PISA ou o TIMSS, são países onde as práticas letivas assumem um forte pendor construtivista e os alunos não são coagidos às aprendizagens por via da reprovação, mas antes pela motivação e pelo encorajamento individual por parte de colegas, professores e profissionais da educação. A Finlândia, por exemplo, conhecida pelos lugares cimeiros que tem vindo a ocupar nos estudos PISA, possui um sistema educativo em que os alunos não realizam exames externos nem reprovam nos doze anos de escolaridade obrigatória. Mais, as posições de topo deste país nos estudos PISA de 2006 deveram-se aos resultados acima da média dos alunos com necessidades especiais. Vemos assim que o cratinismo apenas se tornou alvo da crítica generalizada dos professores mais recentemente e que de alguma forma já foi aplaudido em tempos idos, mas esta é conversa para outra ocasião.

Comecei este artigo referindo que o cratinismo não passa de um preconceito (cretino) contra a cientifização construtivista da educação. Cretino, não porque pretenda ofender alguém, mas porque sendo, como todos os preconceitos, sustentado em perceções de senso-comum, assume contornos de ideias irrefletidas, paroquiais e provincianas; ideias que não foram debatidas e não foram confrontadas com outras num contexto de um ideário cosmopolita; ideias enraizados numa mente cristalizada e autista. A testemunhá-lo está a preciosidade da última entrevista de Nuno Crato à RTP 1. Crato, revelando a sua fraca inteligência mediática, diz em pleno Telejornal das 20h00 que desconfia dos licenciados/mestres em educação que saem das universidades portuguesas, mas sobretudo das escolas superiores de educação. Em consequência, deverão realizar uma prova inútil (a abordar num dos próximos artigos) que, por artes obscuras, necessariamente alquímicas, que apenas um cratino consegue compreender, fará a transmutação das respostas a um conjunto de perguntas cratinas, em evidências das competências pedagógicas, didáticas e científicas de professores de áreas tão diversificadas como as artes, línguas, ciências, matemática e educação física.

Depois do trambolhão mediático de Crato, fala-se, agora, na sua demissão e avança-se o nome de Ramiro Marques como possível sucedâneo. Uma jogada quase inteligente de Passos Coelho (quase, porque o PM está somente a tapar o sol com a peneira) que, garantindo que o cratinismo continuará a ser a política de fundo, se iliba das declarações de Crato, chamando um cratino de uma das instituições que o ministro insultou publicamente.

#pensatempos

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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