Pensatempos

Orlando Figueiredo

Com Papas e bolos…

9 comentários

Recentemente tive oportunidade de ouvir as declarações do Papa sobre os gays. As palavras foram:

Se uma pessoa é gay e busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles [os diferentes] não devem ser marginalizados por causa disso (orientação sexual) e sim que devem ser integrados à sociedade. O problema não é ter essa orientação. Precisamos ser irmãos. O problema é o lóbi por essa orientação, ou lóbis de pessoas ambiciosas, lóbis políticos, lóbis maçónicos, tantos lóbis. Esse é o pior problema.

Esta aparente abertura da igreja, por via do discurso papal, parece ter deixado satisfeita muita gente. O discurso da tolerância do Papa não mostra abertura nenhuma. De facto, apenas vem reforçar o julgamento e a discriminação que a igreja desde à séculos impõe, não em exclusividade, às pessoas LGBT. Poderia começar por perguntar o que acontece aos gays que não buscam Deus? Ou aos que não têm boa vontade? Serão esses julgáveis? Mas não quero ir por aí. Seria falacioso e inútil.

Já não é, contudo, falacioso (nem inútil) questionar se os lóbis da igreja católica são tão problemáticos como todos os outros que o Papa enumerou ou se são portadores de uma pureza tão divina que gozam de um estatuto especial. São muitíssimos os lóbis da igreja: o lóbi da Opus Dei, o lóbi do Banco do Vaticano, o lóbi dos jesuítas… e o próprio lóbi católico como um todo. Com tamanha vocação para a conversão e evangelização, o que é a igreja senão um lóbi descomunal? Não foi o lóbi da igreja que se apoderou, primeiro, de uma Europa inteira e que almeja a apoderar-se de um mundo inteiro. O que são as missões evangelizadoras senão lóbis eclesiásticos que oferecem arroz e farinha, temperados de moralismo e catequese, aos imprudentes que não souberam nascer no primeiro mundo. Não será a pressão da igreja para o estado não retirar os feriados católicos do calendário ou para manter o estatuto de isenção taxativa, uma evidência dos hábitos lobiistas da igreja? O que faz a igreja por todo o mundo há mais de 1500 anos senão lóbi. Mas a esse não se refere Francisco. Esqueceu-se, decerto.

Há mais questões pertinentes e falaciosas nas declarações de Francisco. Por baixo de uma aparente compreensão esconde-se uma tolerância piedosa de coitadinhos deles. Porque não discriminar e respeitar é muito mais que tolerar e não julgar; é reconhecer o pleno direito à existência em pé de igualdade. O direito a constituir família e a amar quem se ama. O direito a ser como se é; afinal, colocando-me no paradigma católico, não será essa a vontade de Deus?

Pessoalmente sempre me mostrei intolerante para com a tolerância. Subjacente à relação de tolerância há sempre uma hierarquização entre o que tolera (domina) e o que é tolerado (dominado). O tolerado está sempre sujeito à boa vontade do tolerante, o que é, simplesmente, repugnante. Toleradas eram as Putas (com maiúscula que também o merecem) antes do 25 de abril. Às casas de passe chamavam-se as casas das toleradas; nome atribuído pelas senhoras honradas e pelos seus dignos maridos. Eram toleradas porque aplacavam os impulsos sexuais dos homens que as senhoras, bem colocadas socialmente e castradas pela frigidez induzida pela hipocrisia social, não conseguiam acalmar. Enquanto as senhoras bordavam piedosamente, noite adentro, as toalhas de linho branco que dependurariam nos altares magníficos das suas igrejas, as toleradas, a troco de pouco dinheiro e muita sífilis, abocanhavam os seus maridos e aplacavam desejos obscuros de praticas sexuais capazes de fazer corar as pedras da calçada.

É isto a tolerância… a perpetuação de uma relação de dominação onde o tolerado deve aceitar e agradecer as permissões e prerrogativas que o tolerante lhe concede. É por isso que o discurso de tolerância papal, a abdicação voluntária do direito (que julga ter) de julgar, mais não faz do que perpetuar as relações de dominação (e humilhação) que a igreja procura, a todo o custo, estabelecer.

Mas não são só as pessoas LGBT que a igreja desrespeita e condena. O desrespeito que mostra pelas mulheres não é menor. Este Papa, aparentemente aberto à renovação e próximo do povo, já disse que as mulheres não podem ser ordenadas, apesar de um papel seu mais ativo ser bem visto (leia-se tolerado) pelos homens que mandam na igreja. O desejo e as expectativas das mulheres não importam nem são tidos em conta. Se uma mulher tiver como sonho ser ordenada, não o pode ser porque os homens da eclésia não a acham digna disso. São toleradas nos moldes em que o tolerante dita – com um papel mais ativo na igreja, mas sem ordenação. São toleradas e por isso são dominadas.

Estranho é ver como as mulheres, apesar da profunda falta de respeito que o patriarcado lhes dedica, se mostram felizes por poderem ter papéis ativos na igreja – sempre vi a mulher do sacristão muito ativa a varrer a sacristia. Não menos estranho é ver pessoas LGBT mostrarem-se satisfeitas e agradecidas com mais esta hipocrisia eclesiástica. Não é esta a natureza ou o destino dos oprimidos — agradecer ao opressor porque lhe deu uma (aparente) folga na humilhação. Talvez seja compreensível, mas não deixa de ser triste. O telos do oprimido não é servidão, é a emancipação.

Os direitos LGBT, assim como os direitos das mulheres são, antes de mais, direitos humanos. Direitos humanos desrespeitados em cada frase proferida e em cada ato levado a cabo pela presunção de uma instituição que se auto-proclama mensageira de Deus. Digam-me, então, onde reside a soberba e o orgulho? Digam-me, então, onde reside a hipocrisia e a demagogia? Digam-me, então, onde reside a presunção e a arrogância?

Digam-me, que eu finjo que não sei.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

9 thoughts on “Com Papas e bolos…

  1. Excelente artigo. Nada mais a dizer.

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  2. Muito assertivo e certeiro esse comentário caro Orlando!
    De fato os cidadãos devem ter direitos e deveres iguais independentemente das suas opções políticas, sexuais, religiosas, ou outras. E os cidadãos, desde que as leis sejam gerais e uniformes como deve ser seu timbre, estão naturalmente integrados na sociedade. portanto o fundamental é pôr em causa a marginalização pretendida por alguns cidadãos , os quais em uníssono com a Igreja querem pôr em causa a igualdade de direitos e oportunidades universais que devem assistir a todos os cidadãos, independentemente do seu sexo, da sua raça, e das suas legítimas opções individuais.
    Não é por acaso que a Igreja católica é a única Instituição Europeia, que ainda discrimina a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, colocando-se dessa forma contra a lei civil, constitucional e comunitária!

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  3. Grande Orlas, mais um grande artigo, aprendo sempre algo quando leio os teus artigos, e é interessante verificar como, normalmente, abordas sempre as questões de forma a que se tornem transversais a tantas áreas e situações que cada um de nós experiencia na sua vida.

    Quanto ao tema do artigo em si… A condescêndencia será sempre uam arma que inflige feridas fatais em qualquer orgulho ou auto estima, caso o permitamos. Faz-me lembrar os escravos da plantações de algodão do sul norte americano antes da guerra de secessão (e depois também que se diga) em que o escravo tolerado era o que estava dentro de casa ao lado do seu “dono”. Se o dono referia o quanto gostava da casa, o escravo gostava dez vezes mais da mesma, com sorte, seria recompensado com a satisfação condescente do seu senhor, enquanto que o escravo de campo era muitas vezes o imprestável, o rebelde, o insurgente.

    Nesta situação é como referiste. O tolerante define sempre os termos da sua tolerância, cabe ao tolerado encaixar nessas limitações. Parece que os novos problemas são, na realidade, tão velhos quanto a nossa existência, infelizmente, escalados a um nível nunca antes visto.

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  4. Orlando, gostei muito de ler este teu post. Fez ressonância!
    A questão que tu colocas “como é que as mulheres e os gays continuam numa igreja hipócrita?” é uma questão que eu própria coloquei a um grupo de amigas minhas, umas lésbicas outras não, mas todas activas na igreja católica em Inglaterra. A resposta delas foi só uma:” é dentro da igreja que temos mais probabilidade de fazer pressão para uma mudança.” De certo que não irá ser a resposta de todos os gays e mulheres, mas estas tomaram uma decisão consciente e de sacrifício para permanecer e provocar mudanças. É talvez a estratégia semelhante à PETA quando compra acções anonimamente do SeaWorld.

    A descriminação da mulher por parte da igreja é visível e condenável, mas a que me preocupa ainda mais é a discriminação subtil e mascarada que esta embebida na sociedade. E é uma discriminação que se enraíza logo de pequenina e que mina por dentro. Estou convencida que um pequeno gesto como usar uma linguagem inclusiva, usar ser humano em vez de homem quando nos referimos à nossa espécie, iria ter um grande impacto.

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    • Olá Ceĺia,
      Obrigado pelo comentário e desculpa a demora na aprovação.
      Compreendo o que dizes sobre essas mulheres que se envolvem com a igreja com o intuito de a tentar mudar. Contudo, não concordo contigo quando fazes a comparação com a PETA. A metáfora que me ocorre é a do judeu que se filia no Partido Nazi. Bem sei que é uma imagem radical, mas, parece-me que a diferença entre o que a igreja faz com as mulheres, os gays e mesmo com as pessoas de outras religiões ou os ateus, e o que os nazis fizeram aos judeus, situa-se somente no quantitativo e não no qualitativo. A qualidade da discriminação é a mesma, o que varia são as formas como se manifestam.
      É claro que as discriminações sociais das mulheres são um problema bem mais grave que a discriminação que a igreja faz; o que não podemos é vê-los como independentes. Quando se perpetua um determinado discurso ao longo de séculos, ele há de ter algum efeito nas mentes mais incautas.
      Enfim… a luta, por um mundo mais justo, continua. Não podemos é baixar braços.

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