Pensatempos

Orlando Figueiredo

iDemocracia

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É hábito criticar os mais jovens por andarem agarrados às mensagens dos telemóveis e ao facebook. Que se alienam e ficam distantes da realidade. Que não comunicam cara a cara e que se escondem por detrás de um perfil virtual e de um iGadget qualquer. Quando oiço estes comentários apenas me ocorre uma imagem de uma população ao rubro em frente a um ecrã gigante, embriagada pelo calor e pela cerveja que acreditam matá-lo, e unida pelo sofrimento e pela ânsia de mais um golo do Benfica (ou do Sporting, ou de Portugal, tanto faz porque dá tudo no mesmo).

Uma boa parte de nós, ao longo de pelo menos a história das civilizações, acreditou sempre que a geração seguinte era tão irresponsavelmente fútil e inútil, que o fim do mudo estaria apenas a alguns anos de distância. Foi assim com a minha geração e as manias das danças modernas e dos cabelos pirosos dos anos 80. Foi assim com a geração que alguém, que não merece o meu respeito intelectual e político, chamou de geração rasca e que agora está à rasca. Mas isso não me impede de vir em defesa dos nossos jovens e da sua idiossincrática forma de comunicar. Os iGadgets, que tantos de nós criticam, fizeram a Primavera Árabe, levaram 1 milhão de pessoas à rua em várias cidades portuguesas no dia 15 de setembro, trouxeram milhões às ruas de Espanha num movimento quase continuo e, mais recentemente, transformaram o Brasil num local perigoso para se ser político e corrupto.

E o futebol? O que fez? Também há milhões no futebol… claro que há. Há os milhões que o Ronaldo, o Mourinho, o Jesus e outros parasitas idênticos anualmente recebem; há os milhões de euros (reais, dólares, tanto faz porque dá tudo no mesmo) gastos em estádios inúteis; e há os milhões de adeptos que, com a razão toldada (ainda mais do que é hábito) pelo álcool, freneticamente berram Benfica (Sporting, Portugal, tanto faz porque dá tudo no mesmo). Falo do futebol, mas poderia falar de muitas outras coisas – poderia falar da alienação do materialismo espiritual de Fátima, por exemplo, que em nada fica atrás do futebol – nem na histeria – e até tem a simpatia do Presidente desta nossa República – criatura sui generis e algo bizarra (de gostos simples, porém) a quem nada agrada mais que um milagrezinho de trazer por casa e uma reforma franciscana – mas não… lembrei-me do futebol e é nesse que quero ficar.

Para minimizar os milhões futebolísticos há que acabar com o futebol profissional e moralizar os salários dos envolvidos; porém, quanto aos iGadgets e à rede democrática que os suporta a coisa fia mais fino. Temos (nós, povo) de estar atentos porque aqueles que detêm o poder político (económico, crematístico, tanto faz porque dá tudo no mesmo) procuram a cada instante instrumentalizá-la em seu benefício seja através de programas de espionagem como o denunciado recentemente por Edward Snowden ou através do controlo e restrição de acesso a serviços por parte do cidadão comum.

A manutenção de uma internet – a virtualidade iMaterial dos iGadgets – livre de censura e inteiramente democrática, deve ser tomada a sério pela geração sms, mas também, pelos seus pais, avós e demais gerações que ainda por aí andem. Num mundo em que os partidos que governam foram tomados pelos crematistas (economistas, capitalistas, tanto faz que dá tudo no mesmo) sem escrúpulos e os órgãos de comunicação estão nas mãos de grandes grupos económicos que, ao invés de informar, buscam defender os seus interesses, a internet parece ser o último reduto de democracia em regiões do mundo que até há pouco tempo pouco gritavam (acreditando que cumpriam a sua parte do contrato) Liberté, Égalité, Fraternité.

Porque se mudam os tempos é necessário que se mudem também as vontades de alienação.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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