Pensatempos

Orlando Figueiredo

Professores, manifestações, greves e exames: afinal o que queremos da escola?

1 Comentário

A manifestação de professores que ontem ocorreu (e na qual participei) reuniu cerca de 50 000 professores, desceu a Avenida da Liberdade do Marquês até aos Restauradores e foi notícia de abertura de telejornais em todos os canais generalistas. A polémica está no ar com o país dividido entre os que compreendem e apoiam os professores apesar dos possíveis problemas associados a realização de exames na próxima segunda-feira e os que demonizam os professores (e demais funcionários públicos) e os consideram culpados de todos os males do mundo. Tristemente, subjacente a todos estes discursos, está a demagogia e a hipocrisia de quem está, sobretudo, preocupado não com a educação dos portugueses, mas com a sua certificação. A data escolhida pelos sindicatos dos professores para fazer greve foi inteligentemente cirúrgica. Greve às avaliações e aos exames é uma forma mediática de luta que gera entropia suficiente nas escolas para deixar Crato com os cabelos em pé.

É claro que o ministro da educação, um dos piores desde a democratização de Portugal, tem um discurso demagogo e hipócrita, mas isso não é novidade nenhuma. A desonestidade intelectual de Nuno Crato e dos seus lacaios é sobejamente conhecida no mundo daqueles que se preocupam com a educação. Sempre sobre a falácia do rigor, Crato (e lacaios) não cessaram de tecer críticas às pedagogias construtivistas defendidas no Currículo Nacional do Ensino Básico que resultou da reforma curricular de 2001. Crato (e lacaios) sempre consideraram que a responsabilidade dos problemas da escola assentava num currículo orientado por competências que, por desconhecimento da classe docente portuguesa, nunca passou do papel. Ou melhor, fruto de uma interpretação pobre que a generalidade dos autores dos manuais escolares fez deste documento, passou para o papel destas, num modelo enviesado pelas perspetivas tradicionais, e acabou por imperar nas escolas perpetuando práticas pedagógicas anacrónicas e geradoras de exclusão social. Naturalmente que Crato nem antes nem depois de ser ministro esteve preocupado com a escola e com a qualidade do ensino em Portugal. É demasiado egocentrado para isso. Porque confunde boçalidade com ironia, desdém com inteligência e bullying com razão, Crato esteve e está preocupado somente em mostrar a todos que sabe mais e que consegue ser mais esperto que os outros. Agora, que conseguiu ficar com a bola, está a acertar as contas com os meninos feios que o contrariaram nos últimos dez anos, com particular incidência nos autores dos currículos por competências de Ciências Físicas e Naturais e de Matemática, amplamente elogiados nos contextos internacionais da investigação em educação. Pergunto-me que rigidez educativa estará na origem desta baixa auto-estima? Porém, visto que não sou seu terapeuta e preferir preservar a minha pessoa a cenários escatológicos, recuso a busca da resposta e refugio-me na ignorância da curiosidade insatisfeita.

A desonestidade intelectual de um ministro demagogo (deve ter tido uma formação com Paulo Portas que há anos se licenciou nas lides da demagogia das feiras e dos mercados) que, para poupar alguns trocados, reduz as horas letivas, mas mantém a extensão dos programas, retira disciplinas, aumenta o número de alunos por turma, quer colocar professores a lecionar mais de 300 alunos por ano letivo, revê currículos de forma leviana e descuidada, desrespeita e ridiculariza estudos, relatórios e recomendações internacionais pagos com o dinheiro dos contribuintes portugueses, crítica o Programa Novas Oportunidades, mas mantém na gaveta, durante meses, um relatório que expõe a forma desonesta como o antigo ministro Relvas usou este programa para conseguir uma licenciatura… (a lista prossegue, claro) e agora se vem mostrar preocupação com o facto de os alunos não poderem fazer exame por causa da greve dos professores, não surpreende quem acompanha o trabalho cratino há anos. Na verdade, reconheço neste seu comportamento apenas mais uma manifestação da sua forma de estar na vida social e política.

Seria, porém, desonesto da minha parte se apenas apontasse a hipocrisia ministerial e não sublinhasse o que de hipócrita existe numa sociedade que se mostra passiva perante as atrocidades que o atual governo tem feito à escola pública, mas se revolta quando se coloca a possibilidade de os alunos não terem as classificações publicadas a tempo e horas ou não poderem realizar os exames. Considero que é perfeitamente legitimo que os encarregados de educação e os alunos queiram as suas classificações, encerrar o ano letivo e desfrutar de um descanso estival. Quanto a isso nada a opor; pelo contrario, parece-me justo e aceitável. O mesmo, porém, não posso dizer de quem não se manifesta perante os ataques que este governo, liderado por um ministério da educação e ciência néscio e insensato, tem feito à educação e que não tem sido alvo de crítica a não ser por uma meia dúzia de intelectuais, por vezes, mas nem sempre, mais ressentidos que preocupados (ver Sebastianismos neste blogue). A passividade social, perante as atrocidades que têm vindo a ser cometidas, é sintoma de uma atitude profundamente hipócrita da sociedade portuguesa em relação à educação. Afinal de contas, ao nos preocuparmos apenas com os resultados finais das avaliações (internas ou externas) mostramos o pequeno Relvas que há em cada um de nós que, ao invés de ambicionar à educação e ao desenvolvimento pessoal e social da sua pessoa, apenas busca a certificação e o título que, aparentemente, lhe consagra o respeito que, por provincianismo e saloiice, não se reconhece à (simples) pessoa.

Esta hipocrisia deixa-me muito mais preocupado que o cratinismo que norteia a ação do ministério da educação. Pacóvio ou erudito, cretino ou credível, o cratinismo, à semelhança do mariadelourdesrodriguismo ou do isabelalçadismo, é conjuntural enquanto que a hipocrisia, associada à passividade social perante os ataques à educação, é estrutural. Os ministros, competentes ou incompetentes, idóneos ou trapaceiros, mudam a seu tempo; os discursos sociais e as ideias aceites de forma acrítica, permeiam a sociedade, penetram o mais fundo das nossas mentes, tornam-se o discurso hegemónico, e materializam-se no modus operandi não questionado.

Façamos greve amanhã, mostremos a Crato e ao governo que não nos deixamos atemorizar por ameaças veladas nem discursos demagógicos. Façamos greve contra a mobilidade especial, contra o aumento do horário de trabalho, mas também contra a normalização da educação, contra o deficit democrático que se acentua não só em Portugal, mas por toda a Europa. Façamos greve, pela dignidade dos professores e pela dignidade dos alunos, mas tenhamos presente que avaliações e exames não são o fim último da educação.

Façamos greve por tudo o que sindicatos reivindicam; mas, sobretudo, por um sistema de ensino que deve educar cidadãos emancipados e críticos e não certificar repetidores acríticos de saberes que outros construíram. E, para conseguirmos esse sistema de ensino, precisamos de greves e lutas sociais; disso não tenho quaisquer dúvidas! Porém, não podemos abrir da formação de uma classe docente crítica, emancipada, pensante e ativa.

Não podemos abrir mão da formação de uma classe de professores intelectuais.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

One thought on “Professores, manifestações, greves e exames: afinal o que queremos da escola?

  1. Concordo que é positivo existir uma classe docente crítica, emancipada, pensante e ativa, mas não necessariamente de uma classe de professores intelectuais.
    Um dos grandes problemas do nosso sistema de ensino (nosso digamos europeu …) tem a ver com a “industrialização” ou “massificação do ensino.
    Professores a beberem o conteúdo de manuais, para o despejarem sobre os alunos, tornados passivos nas suas carteiras, e os quais por sua vez devem debitar esses conteúdos nos respetivos testes de exames, não é no meu ponto de vista saudável, nem incentivador à investigação científica, nem gerador da formação da cidadania ativa e proativa.
    Os professores não podem querer armar em ineletuais (até por que com a internet isso seria absurdo) mas devem sim inserir-se no meio económico e social dos cidadãos, seja no seio da sua comunidade seja no seio das empresas em que os seus pais trabalham.
    Devem inter-agir com os encarregados de educação, não nosentido de armarem em inteletuais (donos do conhecimento) com os mesmos, mas para procurarem enriquecer o conteúdo dos currículos com os mesmos, e também os respetivos sistemas de avaliação.
    O problema dos professores tem residido muito no seu corporativismo, e no muro que pretendem co m a sua armadura inteletual, separar os demais intervenientes do sistema de ensino, que o deviam ser os Pais e encarregados de educação, mas com voz ativa e não subserviente à manienta inteletualidade dos professores.

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