Pensatempos

Orlando Figueiredo

Habemus Papam (de pauperes spiritu)

Deixe um comentário

“Irmãos e irmãs, boa noite. Vocês sabem que o dever de um conclave é dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscar-me quase até ao fim do mundo. Mas aqui estamos. Agradeço a vossa hospitalidade. A comunidade diocesana de Roma já tem o seu bispo. Obrigado”.

As palavras do primeiro discurso do novo papa, que para muitos não passaram de uma inocente brincadeira, revelam, esquecendo que o planeta é esférico e que o Vaticano (ou a Europa) não são o centro de coisa nenhuma, um conceção eurocêntrica em que a Argentina fica nos confins (provincianos, talvez) do mundo. Os fiéis, acriticos e seguidistas,  sorriem e acham-no simpático. Os demagogos, porque anda de autocarro e cozinha as suas refeições, querem colá-lo ao epíteto de papa dos pobres. Esquecem, contudo, que este é apenas o chefe de uma instituição que obstrui direitos às mulheres, desrespeita as pessoas LGBT, protege pedófilos, despreza pessoas com outras crenças, demoniza ateus e se acha a dona da verdade única e imutável (a menos que lhe dê jeito porque aí já se muda qualquer coisa).

Francisco esse, como todos os outros papáveis, tem muitos podres: (1) amigo do ditador argentino Jorge Rafael Videla, que liderou a Junta Militar que governou a Argentina entre 1976 e 1981; (2) foi acusado de ser responsável pela tortura e desaparecimento de um laico e dois sacerdotes durante a ditadura militar – existem testemunhas vivas que sustentam esta acusação; (3) esteve envolvido no roubo de bebés durante a ditadura militar, em particular no roubo da neta de Alicia de la Cuadra, fundadora da associação “Abuelas de Plaza de Mayo”; (4) existem rumores de que protegeu um padre estaounidense acusado de pedofilia; (5) considera que “El matrimonio homosexual es una movida del diablo” (são palavras suas); (6)* considera que “las mujeres son naturalmente ineptas para ejercer cargos políticos” – disse-o em referência à então candidata e atual presidente da Argentina Cristina Fernández – e continuou: “El orden natural y los hechos nos enseñan que el hombre es el ser político por excelencia; las Escrituras nos demuestran que la mujer siempre es el apoyo del hombre pensador y hacedor, pero nada más que eso” e… aguardemos porque a história já nos ensinou que mais escândalos hão de vir.

Francisco I será o papa daqueles que se recusam a refletir e criticar; dos que assumem uma posição subserviente e seguidista; homens incapazes de lutar por um mundo melhor; mulheres que por serem católicas e pactuarem com o patriarcado rejeitam, sem que disso se apercebam, o respeito que devem a si mesmas.

Francisco I, à semelhança dos seus antecessores, é o papa dos pobres; mas de um tipo muito particular de pobres – os POBRES DE ESPÍRITO.


Fontes:

Las oscuras relaciones del nuevo Papa con la dictadura argentina – Jornal Público (Edição Espanhola)
As primeiras palavras de Bergoglio como Papa Francisco – Jornal Público (Edição Portuguesa)
* Declarações proferidas pelo então cardeal Bergoglio no dia 4 de junho de 2007 e difundidas pela agência noticiosa argentina Telám.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s