Pensatempos

Orlando Figueiredo

Retalhos de uma noite de sábado.

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Data: 16 de fevereiro de 2012

Cenário: Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, mais conhecido por Hospital Amadora-Sintra. Um historial de 13 anos de gestão privada transformada em entidade público-empresarial (vulgo PPP) em 2008. No átrio de entrada ostenta um orgulhoso letreiro reclamando ter sido o primeiro hospital português acreditado pelo King’s Fund.

Sintoma: Dor aguda na região lombar, que se estende até à coxa da perna direita, caracterizada por espasmos e guinadas paralisantes.

Atores: A minha mãe (a paciente com dores e 76 anos de idade) e eu (o paciente sem dores e com 45 anos de idade).

Contexto: Desde meados da semana que se queixava de uma dor na região lombar; na sexta-feira agravou-se e foi aos serviços de urgência do centro de saúde onde foi medicada depois de lhe diagnosticarem uma dor muscular. No sábado, por voltas das 19h00, fui visitá-la. Depois de me descrever o seu doer, suspeite de dor ciática. Peguei no iPhone e googlei “dor ciática”; leio a wikipédia e fico sem dúvidas. As dores não param e os movimentos estão muito limitados; optamos por ir aos serviços de urgência do hospital, afinal de contas a dor ciática não é uma doença, mas um sintoma de que algo está mal, na maioria das vezes, na coluna vertebral.

Às 20h 10m e 23s dou entrada à minha mãe na urgência do hospital, poucos minutos depois somos chamados à sala de triagem. Explicamos ao enfermeiro o que se passa e somos colocados na prioridade baixa de atendimento – pulseira verde. Voltamos para a sala de espera e consulto o quadro eletrónico para a clínica geral; tempo de espera: 4h 40m. Hum… 8h 35m da noite mais, quase, cinco horas, seremos atendidos lá para a uma da madrugada; desanimei. Olhei para a pasta e sorri; ainda bem que ando sempre com um livro atrás.

Sentamo-nos, os dois, pacientes, e esperámos procurando não desesperar. Entre leituras e dormitares lá se aproxima a uma da manhã e a esperança de sermos atendidos. As suspeitas que tive acerca dos modelos matemáticos de filas de espera (que me impingiram nas aulas de Investigação Operacional do curso de engenharia que fiz no século passado) confirmam-se: talvez sirvam para auditores do King’s Fund, mas para a realidade do paciente paciente e do paciente acompanhante, apenas servem para criar falsas esperanças. Continuamos à espera; ambos pacientes, mas apenas um doente.

As horas passam e tornamo-nos impacientes; a minha mãe exaspera-se porque preferia que eu estivesse em casa a dormir; eu exaspero-me porque ela se exaspera; respiramos fundo, encolhemos os ombros, trocamos um sorriso e voltamos, os dois, a ser pacientes.

4h 40m ouve-se o tão desejado nome nos altifalantes “D. Maria H é favor dirigir-se ao gabinete quatro”. Levanto-me e, um pouco ansioso, começo a empurrar a cadeira de rodas; quero perguntar ao segurança como se vai para o gabinete quatro. “Anda embora, Orlando Zé, eu sei o caminho”, diz-me a minha mãe (im)paciente. Sorrio, para o segurança e prosseguimos. Ter 76 anos e um marido de 85 permite-nos conhecimento minucioso de arquitetura hospitalar.

No caminho cogito: há alguma verdade no número 4h 40m que inicialmente vi no painel eletrónico à frente da frase “Clínica Geral – Tempo de espera:”. O oráculo tecnológico não se havia enganado; 4h 40m era a hora de atendimento e não o tempo de espera; eu é que interpretei mal – malfadada cadeira de Investigação Operacional que não me preveniu para as subjetividades oraculares dos modelos matemáticos. Tomo nota do disparate que me passa pela cabeça, sorrio e prossigo seguindo as dicas da minha mãe, ambos à conquista do gabinete quatro.

Entramos na sala de urgência; no balcão central dois médicos procuram aliviar os queixosos (im)pacientes. “Já foram mais, mas com a crise e os cortes…”, diz-me uma senhora de farda verde quando me ouve exclamar indignado “Mas só estão aqui dois médicos?!”

– Então de que se queixa, D. H?

– Ai sôtor, é esta maldita dor… são umas guinadas que não me deixam fazer nada; não tenho posição de estar. Parecem umas facas de fogo que me vêm das costas até à perna.

O questionário prossegue e, na conversa a três, acaba por se confirmar o diagnóstico que suspeitara – dor ciática.

– Olhe D. H vão chamá-la da enfermaria para lhe darem uma injeção e um frasquinho de soro; depois vai ao Rx para lhe tirarem uma radiografia à coluna, está bem?

– Sim sôtor; o sôtor é que sabe.

Picam-se carne e veias da, de novo paciente, paciente. Depois, impaciente, dá-me as indicações do local onde fica o Rx. Na sala de espera, enquanto aguardo que o radiologista fotografe a coluna da minha mãe paciente, uma senhora queixa-se; o marido paciente tem de ser visto por um ortopedista, mas as urgências de ortopedia só funcionam a partir das nove e por isso terá de aguardar (e melhor é não desesperar). Talvez fosse boa ideia pôr um cartaz à entrada do hospital: Urgências de ortopedia só a partir das 9h00. Se é urgente volte mais tarde.

– “É a crise”, explica-me a senhora envergonhada com uma culpa que não é sua. “É a crise!”, repete; “É a troika, eles levam-nos tudo; esses e os malandros que nos governam”. Sorrio e aceno que sim com a cabeça enquanto franzo a testa. Quase lhe digo, “não tem de pedir desculpa…”.

A minha mãe volta do Rx; a cadeirinha empurrada por um funcionário de farda verde; “agora aguarde aqui que a chamem no altifalante”, recomenda antes de se retirar.

Pouco passa das 5h00; na televisão, por cima de mim, alguém tenta vender uma serra elétrica que parece conseguir maravilhas em qualquer bricolage doméstico. Pergunto  às três pessoas que, além de nós, estão na sala, se se importam que retire o som à televisão; anuem sim, aliviadas com a ideia. Enquanto baixo o som, sorrio com o pensamento que talvez o ortopedista, por quem a senhora do canto espera, estivesse interessado em comprar a serra maravilha que a televisão anuncia.

Sento-me e aguardamos alguns minutos. A bexiga impaciente da minha mãe paciente empurra-nos para a casa de banho.

Quando saímos olho, impaciente, para a sala de consultas de urgência. Em vez de me dirigir à sala de espera, peço à minha mãe que aguarde um pouco, e vou à sala de consultas. Procuro o médico que nos atendeu e minto-lhe:

– Doutor, ainda não chamaram a minha mãe? É a D. Maria H? É que fui com ela à casa de banho e chamaram alguém nessa altura e eu não percebi o nome.

– Eu sei, eu sei quem é. Não, não chamámos, mas traga a senhora que atendo-a já.

Com o ânimo renovado, empurro a cadeira na direção do balcão onde o médico se senta.

– Então, D. H, sente-se melhor?

– Um bocadinho sôtor, parece que a injeção me aliviou um bocadinho a perna.

– A radiografia mostra que a senhora tem calcificações na coluna… vou-lhe passar uma receita… vai tomar estas injeções uma vez por dia… e tem de ir a uma consulta do médico de família… Boa noite e as melhoras.

– Boa noite, sôtor. Muito obrigado.

Impacientes e aliviados, dirigimo-nos para a saída do hospital.

Quando cruzo a porta olho de relance o oráculo tecnológico que adivinha 5h 42m da madrugada.

Foram 8h e 50 m de espera e 42 minutos de atendimento; é assim a assistência médica dada a quem deixou o rasto de uma vida de trabalho, por vezes duro, e sempre honesto. Bom uma vida não; afinal de contas a minha mãe só começou a trabalhar aos onze anos, depois de a professora da 4.ª classe ter decidido que ela não dava para a escola; talvez se tivesse começado mais cedo merecesse melhor consideração do Estado (cuja maiúscula não denota respeito; apenas serve para distinguir de outros estados, como, por exemplo, o triste estado do Estado) que a devia proteger.

A minha mãe?! Está melhorzinha, obrigado.

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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