Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 6/6)

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Parte 5


Voltando ao cerne da discussão, se fui buscar inspiração na simbiose do mundo natural, é também na sua diversidade que a consigo encontrar; de facto, só pode haver simbiose se houver diversidade; o que têm dois iguais a partilhar? A sociedade global que estamos a construir quer-se resiliente e, por isso, diversa. Precisamos tanto de soluções locais miméticas e simbióticas do mundo não humano, como de propostas globais com características idênticas. Precisamos de ideias e tecnologias distintas para que as comunidades locais criem autonomia e resiliência, mas também de ideias e tecnologias globais que permitam organizar e planificar o presente e o futuro. Com uma grande fração da população a viver em grandes centros urbanos, e dada a impossibilidade de deslocar essas populações para zonas rurais, também é necessário conceber soluções que permitam a gestão destes aglomerados humanos. E qual a melhor forma de conseguir a diversidade necessária aos diversos níveis?
Na minha perspetiva é através da construção de uma democracia radical global. Uma democracia onde cada cidadão deste planeta olhando o mundo na sua plenitude e respeitando e reconhecendo o valor intrínseco de pessoas, animais e natureza exerça a sua cidadania de forma consciente, ativa e positiva. Para isso apenas precisamos de aproveitar o que já temos; o que, numa primeira perspetiva poderá parecer um problema — mais de sete mil milhões de cérebros para conceber e 14 mil milhões de mãos para materializar. É verdade… a matéria-prima já existe e, neste momento, é um problema porque não lhe é permitido assumir o controlo e destino das suas próprias vidas particulares e globais. Os seus papéis são ditados por um mercado tirano e crematístico insensível às suas necessidades. Milhões de pessoas são confinadas à ignorância e à pobreza e vistas como um problema em vez de um possível contributo para a solução. É necessário munir as pessoas das ferramentas intelectuais fundamentais: as que permitam o desenvolvimento de uma visão crítica do mundo e de si mesmas; como referiu Isaac Asimov, se o conhecimento gerou problemas não é com a ignorância que os vamos resolver. Se, permitido me for, usar a metáfora de Pierre Bordieu, não será grande o capital financeiro a investir para que cada cidadão deste planeta possa incrementar o seu capital cultural a um nível que lhe permita encetar, de forma irreversível, um processo emancipatório aos níveis intelectual e social; E, por cada cidadão educado, por cada cidadão emancipado, teremos mais um cidadão a exercer a sua cidadania, um agente democratizando de forma radical a sociedade global. Este é o único capital que é preciso fazer crescer na sociedade que estamos a construir; o resto são somente recursos que devem ser utilizados tendo em conta os processos cíclicos do planeta.
A palavra crise, em mandarim chinês, é representada por dois ideogramas: 危機 (translit. wēijī ou wei-chi); o primeiro, wēi, significa perigo e o segundo, jī, oportunidade segundo alguns linguistas e ponto crucial, segundo outros; como não estou a discutir linguística permito-me a liberdade de interpretar jī como ponto crucial onde pode surgir a oportunidade. Um período de crise é, sem dúvida, um período de perigo; um vórtice no fluxo espácio-temporal, que perturbado por ventos de mudança busca um novo estado de equilíbrio. A nós, constituintes e agentes deste ponto crucial, cabe-nos, sem sebastianismos e munidos das novas ferramentas de perceção que temos vindo a construir no último século, arregaçar as mangas e aproveitar a oportunidade de construir um mundo melhor, um mundo pelo bem de tudo e de todos — pessoas, animais e natureza.


FIM

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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