Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 5/6)

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Parte 4


Esta forma de olhar e valorizar o mundo não se compadece com as velhas dicotomias políticas esquerda/direita, comunismo/capitalismo ou com, as ainda mais velhas, dicotomias ontológicas homem/natureza, vivo/inanimado. O antropocentrismo a que todas elas estão sujeitas coloca-as no domínio das mundividências com interesse histórico e com pouco interesse social. Podemos (e devemos), sempre conscientes de que são uma perceção obsoleta, usar algumas das ideias e conceitos que aí residem para elaborar cartas celestes que nos guiem na construção das novas perceções que a nossa época reclama, mantendo sempre viva a ideia de que, também as novas, não passam de perceções histórica e culturalmente situadas.
Uma reflexão atenta sobre o mundo leva-nos, necessariamente, à conclusão que a riqueza é produzida não só pelos humanos, mas por todos os sistemas do planeta; de facto, as riquezas fundamentais só podem ser produzidas pelos ecossistemas: a riqueza da água com qualidade que permita o florescimento da vida, de uma atmosfera limpa, de alimentos saudáveis e tudo o mais que precisamos para que a οἶκος onde estamos nos proporcione uma vida com qualidade e tempo para a comunidade. Não se trata de atribuir uma valorização instrumentalista ao mundo natural, mas antes a construção da perceção de que não somos donos desse mundo, somos seus constituintes; criar a consciência de que a Ciência, a Arte, a Filosofia não são tentativas de tornar o mundo inteligível e dominável aos olhos e mãos humanas, mas ensaios de um mundo que busca compreender-se a si mesmo.
O paradigma que emerge é o da diversidade: o poliparadigma cuja linha orientadora é a totalidade, o ὂλος (translit. holos) da existência. Mais uma vez plagio (como se fosse possível plagiar no mundo uno) a ideia do mundo natural; da mesma forma que biodiversidade simbiótica garante a resiliência de um ecossistema e que a ecodiversidade simbiótica garante a resiliência do planeta, são também as diversidades de ideias e práticas humanas simbiontes que poderão garantir a resiliência de sociedades e economias.
É, talvez, pertinente sublinhar a importância da simbiose no processo de evolução e desenvolvimento (não crescimento) social. Também aqui nos socorremos do mundo não humano; desta vez da história da vida na Terra. O que as teorias científicas (perceções construídas em contextos culturais e históricos específicos) do século XX nos ensinaram é que a colaboração simbiótica é o cerne da evolução para um novo estádio organizativo mais complexo que o anterior. Cada um destes estádios organizativos dá origem a novos sistemas com propriedades emergentes distintas das dos seus componentes isolados. Um exemplo elementar é a relação simbiótica entre um átomo de oxigénio e dois átomos de hidrogénio que dão origem a uma molécula de água. O sistema composto é, nas condições em que existe, mais estável que os seus átomos separados. Entretanto, as propriedades desta nova substância nada têm a ver com as dos átomos que a constituem. Os exemplos sucedem-se na escala organizativa, não num processo linear, mas numa complexidade e diversidade de formas quase infinita. O mesmo se passa com os organismos vivos; mitocôndrias e cloroplastos, outrora estruturas independentes, aprenderam a colaborar com as células que são o seu οἶκος e desenvolveram uma economia dos recursos que resulta numa relação de ganho-ganho. As células organizam-se em tecidos, estes em órgãos e estes em seres de uma determinada espécie que colaboram com outras espécies formando ecossistemas que são suporte de vida dos planetas (bom, pelo menos deste). Os conceitos de organismo e ecossistema (con)fundem-se e tornam-se mais numa perspetiva que depende do lugar do que um conceito objetivo e claro com correspondentes inequívocos no real. Enquanto que para o animal a célula é um dos seus constituintes, para a mitocôndria é o seu habitat, inserida num ecossistema mais abrangente que é o próprio animal. Da mesma forma na perspetiva do humano, o lugar onde vive insere-se num ecossistema, e na perspetiva da Terra, o humano é um dos seus constituintes (ainda que nos últimos tempos dos menos simbióticos). Tudo é, simultaneamente, constituinte e constituído numa organização simbionte.
É nesta ideia que reside a importância da promoção da relação de simbiose entre os humanos e dos humanos com o mundo não humano; à semelhança dos isomorfismos que a modernidade estabeleceu entre as teorias do mundo não humano e a organização social, também a pós-modernidade o pode e deve fazer. Não quero com isto dizer que as ciências sociais se devam subordinar às mundividências construídas pelas ciências naturais; a diversidade paradigmática das ciências sociais é tão interessante com a que referi no contexto da física e igualmente situada num determinado contexto histórico e cultural; contudo parece-me que é através da promiscuidade dos saberes que se fecunda a verdadeira riqueza epistémica e, por isso, a luxúria da partilha do conhecimento tem tanto de útil, como de desejável. A reflexão que fiz nas últimas linhas procura denotar o caráter de estruturas emergentes que são as sociedades; emergem da organização humana e, por que os humanos são sistemas naturais, também as sociedades o são. Nestes tempos de totalidade poderá perguntar-se qual o sentido de manter as adjetivações disciplinares aos saberes construídos.


Parte 6

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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