Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 4/6)

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Parte 3


As soluções que até agora têm sido avançadas para a resolução da crise, por continuarem dominadas pelo paradigma fragmentado da modernidade europeia, oferecem somente mais do mesmo. São vários os exemplos que sustentam esta ideia: a começar pelas medidas de austeridade que os sucessivos governos do PS e PSD, impulsionados pelas exigências do FMI e da UE (França e Alemanha?!), passando pelos resgates a entidades financeiras como o BPN ou ainda nas irresponsáveis propostas da chanceler alemã Angela Merkel de tornar os países devedores numa espécie de off-shores dos direitos humanos e da proteção ambiental, sustentam-se na valorização única e exclusiva do capital enquanto fim em si; por outras palavras, perpetuam a lógica do sistema crematístico ao invés da gestão e distribuição justa da riqueza criada, que deveria ser feita pelo sistema económico. A última medida que referi é um exemplo particularmente pertinente desta situação; ignorar a necessidade de gerar um ambiente saudável e de bem-estar das pessoas não é uma medida de resolução de problemas, é uma medida de adiamento da resolução de problemas. Não é possível converter bem-estar de pessoas, animais e natureza em rendimentos de capital porque uma vida humana destruída, um animal condenado à escravatura ou as emissões de gases com efeito de estufa não podem ser recuperados através de investimentos financeiros mesmo que carreguem o rótulo verde.
A crise só pode ser resolvida através da construção de uma perceção holística do mundo; uma perceção que privilegie a compreensão da complexidade das relações humanas internas e externas e que se sustente nelas para administrar a riqueza gerada e que construa um sistema económico sustentado nos saberes da ecologia, não enquanto cânone de conhecimentos de uma disciplina científica, mas como forma de pensar o mundo.
A primeira mudança que necessitamos fazer é reconhecer o caráter metafórico e representativo e, consequentemente, histórico das nossas mundividências. Um paradigma não fornece, como já tive oportunidade de o sublinhar, um conhecimento objetivo e direto do real; um paradigma constrói um conjunto de perceções subjetivas, com uma história, e culturalmente situadas partilhada por um número alargado de indivíduos. Quão absurdo é pensarmos assim; teríamos de considerar que o geocentrismo tinha sido uma verdade até ao século XV, então substituída pelo que viria a ficar conhecido como o paradigma newtoniano que, no início do século XX, viria a ser substituído pela Teoria da Relatividade e pela Mecânica Quântica. Será com certeza mais sensato encarar estas teorias científicas como perceções histórica e culturalmente situadas, quanto mais não seja, porque nenhuma delas destronou completamente a outra. Ainda hoje usamos a metáfora do geocentrismo quando olhamos para uma carta celeste, da relatividade de Einstein quando queremos sincronizar os relógios dos satélites com os relógios terrestres, da mecânica quântica quando queremos por referido relógios em comunicação digital e claro que é a metáfora da mecânica newtoniana que nos guia na colocação dos satélites em órbita. As teorias foram substituídas em consequência das alterações da perceção humana do real e, ao contrário do que alguns apregoam, o século XX tornou a Física numa ciência pós-paradigmática.
Na segunda metade do século XX, fruto do desenvolvimento científico e do estranho mundo que a relatividade e a mecânica quântica desvendavam, foi-se materializando a ideia de uma perspetiva holística em que as entidades aparentemente independentes no contexto da mecânica clássica surgem como perturbações interligadas e interdependentes; vórtices num contínuo fluxo do espaço-tempo unificado por Albert Einstein. Esta necessidade de olhar os sistemas como um todo foi rapidamente apropriada por diversas áreas científicas e em particular as ciências da Terra que olham agora o planeta como uma entidade una, ainda que incompleta (entre outras razões porque a energia que permite a dinâmica deste sistema provém de uma fonte exterior: o Sol). É no prosseguimento desta visão global e holística que reclamamos a extensão do reconhecimento do valor intrínseco — atribuído, no contexto do positivismo da modernidade, somente a (alguns) humanos — a animais e ecossistemas; mas também à singularidade da montanha e do deserto, da floresta e do oceano, do sol e das estrelas; este é, na minha perspetiva, o caminho a seguir.
A compreensão de interdependência global permite o despertar da consciência e da empatia universal e, em consequência, da valorização intrínseca do mundo humano e não humano que, estamos agora conscientes, não são meras coisas a explorar, mas parte integrante do nosso ser. A adoção de estilos de vida miméticos aos ciclos naturais, o desenvolvimento de técnicas e tecnologias que possibilitem uma relação simbiótica entre pessoas, animais e natureza, o desenvolvimento de um sistema económico e o abandono do sistema crematístico, são mais do que necessidades de uma biosfera em colapso, são um imperativo que resulta da mudança da perceção que temos do mundo.


Parte 5

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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