Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 3/6)

Deixe um comentário

Parte 2


O que disse até aqui permite, certamente, concluir que o conhecimento e a mundividência que temos do mundo, longe de ser uma epifania do real, são poderosos instrumentos de construção da realidade; não num qualquer sentido místico de uma ideia pueril do poder da mente, mas porque as ações que tenho no mundo são pensadas e materializadas em dependência à forma como concebo esse mesmo mundo validando, em retorno cíclico, essa conceção. Se abordarmos um nosso semelhante com a perceção de que ele é nosso inimigo, ele responderá de forma similar confirmando a nossa perceção e contribuindo para a convicção de que estávamos corretos na assunção que fizemos; da mesma forma, os sistemas naturais respondem (ou a perceção que construímos das suas resposta) em concordância com a mundividência subjacente à nossa ação.
O paradigma de exploração em que nos encontramos, um paradigma que confunde o mundo natural com os recursos que aí encontramos, os animais com coisas que podemos explorar sem respeito pelos seus interesses e as pessoas com a sua produtividade, só pode existir num contexto de atribuição de valor utilitarista e de negação de valor intrínseco à natureza e à sociedade. Mesmo o próprio humano perde o fim em si que Kant lhe reconhecera e é instrumentalizado num processo mecânico e insensível de melhoria da sua produtividade a qualquer preço.
Esta visão utilitarista de humanos e não humanos, só pode ser negada através do reconhecimento de valor intrínseco da pessoa humana, dos animais, tendo em conta a sua senciência, e do mundo não humano tendo em conta a sua singularidade ou, numa linguagem PAN, a Pessoas, Animais e Natureza é reconhecido valor intrínseco independente do seu valor utilitário. Não se iluda o leitor… não estamos a defender que os humanos não tem o direito de usar os recursos naturais; isso seria negar a sua própria condição de ser vivo, dado que todos os seres vivos utilizam os recursos disponíveis à sua volta. O que se questiona aqui é o direito (e a necessidade) de apropriação (e destruição) desses recursos. A humanidade, no contexto da mundividência fragmentária ocidental, é a única espécie que se considera como proprietária do mundo não humano e que tem o direito de desalojar, extinguir e destruir ecossistemas inteiros para satisfazer necessidades de uma minoria da população mundial, que estão muito longe de serem as necessidades básicas.
As palavras Economia e Ecologia tem o prefixo Eco em comum e a sua raiz é a palavra grega οἶκος (tranlit. oikos) que significa “casa” ou, de forma mais abrangente, “o lugar onde se vive”. Já os sufixos distintos nas duas palavras denotam significados diferentes; o νόμος (translit. nomos) da primeira, significa “gestão, distribuição ou administração” e o λόγος (translit. logos) da segunda significa “estudo de”. Seria com certeza ingénuo da minha parte reclamar que o λόγος da οἶκος deve antecipar o νόμος; a ciência não antecipa a tecnologia; ambas se desenvolvem numa cumplicidade que logra qualquer tentativa de estabelecer artificialmente fronteiras nítidas. Do ponto de vista epistemológico, o processo de administração (interação entre o aprendente e o objeto aprendido) é também um processo de estudo e aprendizagem acerca da coisa administrada; contudo, mais do que é ingénuo, é insensato, proceder ao λόγος da οἶκος ignorando o νόμος que dela foi feito e, apesar da insensatez e dos seus resultados estarem à vista de todos, é o que continuamos a fazer.
O sistema capitalista não reconhece qualquer valor intrínseco ao mundo humano e não humano. O seu principal (e único) objetivo é, através do uso do dinheiro (polidamente chamado de capital) produzir mais dinheiro que deverá ser distribuído de uma forma supostamente naturalista — aquele que for mais competitivo consegue uma maior fatia do bolo por direito natural. Este princípio absurdo e sustentado numa mundividência enviesada do mundo, foi agravado com a implementação do neoliberalismo dos anos 80 e 90 do século XX, inspirado na Escola Económica de Chicago e liderado por Margaret Thatcher no Reino Unido, Ronald Reagan no E.U.A. e Cavaco Silva em Portugal. O capitalismo agressivo e predatório, que há mais de um século tem vindo a estender os seus braços e a apoderar-se das economias mundiais, não é um sistema económico (porque não visa a gestão e distribuição da οἶκος), mas um sistema crematístico porque visa a acumulação ávida de riqueza. A palavra crematística, à semelhança da economia e da ecologia, também tem a sua origem na sociedade grega clássica. O termo foi usado por Aristóteles no tratado Ética a Nicómaco sendo bem clara a distinção entre a crematística e a economia; enquanto que o segundo visa uma desejável gestão e distribuição da riqueza, o primeiro denota a condenável acumulação de bens pelo prazer único de os possuir. Se olharmos para aquilo que chamamos de sistema económico mundial facilmente compreendemos que lhe deveríamos chamar sistema crematístico mundial e, no contínuo desta ideia, trocar o nome de cursos, escolas e faculdades de economia para crematística.


Parte 4

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s