Pensatempos

Orlando Figueiredo


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A cela

Excerto de uma carta de Nelson Mandela a Winnie Mandela escrita na prisão de Kroonstad, datada de 1 de Fevereiro de 1975.

In Mandela, N. (2010). Nelson Mandela: arquivo íntimo. Lisboa: Objectiva. (pp. 211-2).


… a cela é o lugar ideal para nos conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos. Ao avaliarmos a nossa evolução enquanto indivíduos tendemos a concentrar-nos em factores externos como a posição social, o poder de influência e a popularidade, a riqueza e o nível de instrução. Estes são, de facto, factores importantes para a avaliação do sucesso individual no que se refere a aspectos materiais e é perfeitamente compreensível que muitas pessoas se empenhem em alcançá-los. Existem no entanto factores internos que podem ser ainda mais decisivos na avaliação de uma pessoa enquanto ser humano: a honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros – qualidades ao alcance de todas as almas – constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós. A evolução em matérias desta natureza é impensável sem uma introspecção séria, sem nos conhecermos a nós próprios, sem conhecermos as nossas fraquezas e os nossos erros. No mínimo, se não nos der mais nada, a cela proporciona-nos a oportunidade de  analisarmos todos os dias a nossa conduta na sua globalidade, de ultrapassarmos o que mau houver em nós e desenvolvermos o que possamos ter de bom. A meditação frequente, nem que seja durante 15 minutos por dia antes de adormecer, pode ser muito proveitosa a este respeito. No início pode parecer-nos difícil identificar os aspectos negativos da nossa vida, mas com perseverança este exercício poderá revelar-se altamente compensador. Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar.


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Retalhos de uma noite de sábado.

Data: 16 de fevereiro de 2012

Cenário: Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, mais conhecido por Hospital Amadora-Sintra. Um historial de 13 anos de gestão privada transformada em entidade público-empresarial (vulgo PPP) em 2008. No átrio de entrada ostenta um orgulhoso letreiro reclamando ter sido o primeiro hospital português acreditado pelo King’s Fund.

Sintoma: Dor aguda na região lombar, que se estende até à coxa da perna direita, caracterizada por espasmos e guinadas paralisantes.

Atores: A minha mãe (a paciente com dores e 76 anos de idade) e eu (o paciente sem dores e com 45 anos de idade).

Contexto: Desde meados da semana que se queixava de uma dor na região lombar; na sexta-feira agravou-se e foi aos serviços de urgência do centro de saúde onde foi medicada depois de lhe diagnosticarem uma dor muscular. No sábado, por voltas das 19h00, fui visitá-la. Depois de me descrever o seu doer, suspeite de dor ciática. Peguei no iPhone e googlei “dor ciática”; leio a wikipédia e fico sem dúvidas. As dores não param e os movimentos estão muito limitados; optamos por ir aos serviços de urgência do hospital, afinal de contas a dor ciática não é uma doença, mas um sintoma de que algo está mal, na maioria das vezes, na coluna vertebral.

Às 20h 10m e 23s dou entrada à minha mãe na urgência do hospital, poucos minutos depois somos chamados à sala de triagem. Explicamos ao enfermeiro o que se passa e somos colocados na prioridade baixa de atendimento – pulseira verde. Voltamos para a sala de espera e consulto o quadro eletrónico para a clínica geral; tempo de espera: 4h 40m. Hum… 8h 35m da noite mais, quase, cinco horas, seremos atendidos lá para a uma da madrugada; desanimei. Olhei para a pasta e sorri; ainda bem que ando sempre com um livro atrás. Continuar a ler


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Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica

Figueiredo, O. (2012). Identidade terrestre: um constructo que tem por base a cultura científica. Paideia: Revista de Cultura e Ciência (3). pp. 15-28.


<15>

Globalização! O chavão da nossa Era! O desenvolvimento científico do Iluminismo Europeu iniciou uma revolução epistémica sem precedentes. Para o bem e para o mal as sociedades industriais desenvolveram-se e, no final do século XX, a tecnologia reduziu o planeta ao intervalo de tempo infinitesimal. O século XXI coloca os nossos semelhantes do outro lado do mundo à distância de um clique e o consumo de produtos exóticos a, apenas, algumas semanas de viagem. Sustentadas por uma economia termodinâmica, as sociedades transacionam bens físicos e culturais a uma velocidade que não tem precedentes na antropohistória e, ainda menos, na geohistória. Esta é, talvez, a faceta mais conhecida da Globalização; contudo, nesta aldeia  global (perdoem-me o lugar-comum) e multicultural novos problemas emergem e assumem, eles próprios, uma dimensão universal. A mesma tecnociência que assegura o desenvolvimento desta relação universal, simultaneamente, constrói saberes — diagnósticos e prognósticos — que questionam a sua possibilidade, pelo menos nos moldes em que se tem vindo a desenvolver. Continuar a ler


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Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 6/6)

Parte 5


Voltando ao cerne da discussão, se fui buscar inspiração na simbiose do mundo natural, é também na sua diversidade que a consigo encontrar; de facto, só pode haver simbiose se houver diversidade; o que têm dois iguais a partilhar? A sociedade global que estamos a construir quer-se resiliente e, por isso, diversa. Precisamos tanto de soluções locais miméticas e simbióticas do mundo não humano, como de propostas globais com características idênticas. Precisamos de ideias e tecnologias distintas para que as comunidades locais criem autonomia e resiliência, mas também de ideias e tecnologias globais que permitam organizar e planificar o presente e o futuro. Com uma grande fração da população a viver em grandes centros urbanos, e dada a impossibilidade de deslocar essas populações para zonas rurais, também é necessário conceber soluções que permitam a gestão destes aglomerados humanos. E qual a melhor forma de conseguir a diversidade necessária aos diversos níveis? Continuar a ler


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Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 5/6)

Parte 4


Esta forma de olhar e valorizar o mundo não se compadece com as velhas dicotomias políticas esquerda/direita, comunismo/capitalismo ou com, as ainda mais velhas, dicotomias ontológicas homem/natureza, vivo/inanimado. O antropocentrismo a que todas elas estão sujeitas coloca-as no domínio das mundividências com interesse histórico e com pouco interesse social. Podemos (e devemos), sempre conscientes de que são uma perceção obsoleta, usar algumas das ideias e conceitos que aí residem para elaborar cartas celestes que nos guiem na construção das novas perceções que a nossa época reclama, mantendo sempre viva a ideia de que, também as novas, não passam de perceções histórica e culturalmente situadas. Continuar a ler


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Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 4/6)

Parte 3


As soluções que até agora têm sido avançadas para a resolução da crise, por continuarem dominadas pelo paradigma fragmentado da modernidade europeia, oferecem somente mais do mesmo. São vários os exemplos que sustentam esta ideia: a começar pelas medidas de austeridade que os sucessivos governos do PS e PSD, impulsionados pelas exigências do FMI e da UE (França e Alemanha?!), passando pelos resgates a entidades financeiras como o BPN ou ainda nas irresponsáveis propostas da chanceler alemã Angela Merkel de tornar os países devedores numa espécie de off-shores dos direitos humanos e da proteção ambiental, sustentam-se na valorização única e exclusiva do capital enquanto fim em si; por outras palavras, perpetuam a lógica do sistema crematístico ao invés da gestão e distribuição justa da riqueza criada, que deveria ser feita pelo sistema económico. A última medida que referi é um exemplo particularmente pertinente desta situação; ignorar a necessidade de gerar um ambiente saudável e de bem-estar das pessoas não é uma medida de resolução de problemas, é uma medida de adiamento da resolução de problemas. Não é possível converter bem-estar de pessoas, animais e natureza em rendimentos de capital porque uma vida humana destruída, um animal condenado à escravatura ou as emissões de gases com efeito de estufa não podem ser recuperados através de investimentos financeiros mesmo que carreguem o rótulo verde. Continuar a ler


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Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 3/6)

Parte 2


O que disse até aqui permite, certamente, concluir que o conhecimento e a mundividência que temos do mundo, longe de ser uma epifania do real, são poderosos instrumentos de construção da realidade; não num qualquer sentido místico de uma ideia pueril do poder da mente, mas porque as ações que tenho no mundo são pensadas e materializadas em dependência à forma como concebo esse mesmo mundo validando, em retorno cíclico, essa conceção. Se abordarmos um nosso semelhante com a perceção de que ele é nosso inimigo, ele responderá de forma similar confirmando a nossa perceção e contribuindo para a convicção de que estávamos corretos na assunção que fizemos; da mesma forma, os sistemas naturais respondem (ou a perceção que construímos das suas resposta) em concordância com a mundividência subjacente à nossa ação.
O paradigma de exploração em que nos encontramos, um paradigma que confunde o mundo natural com os recursos que aí encontramos, os animais com coisas que podemos explorar sem respeito pelos seus interesses e as pessoas com a sua produtividade, só pode existir num contexto de atribuição de valor utilitarista e de negação de valor intrínseco à natureza e à sociedade. Mesmo o próprio humano perde o fim em si que Kant lhe reconhecera e é instrumentalizado num processo mecânico e insensível de melhoria da sua produtividade a qualquer preço. Continuar a ler