Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 2/6)

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Parte 1


Outra perceção comum no contexto das sociedades globalizadas e organizadas em torno das ideias da modernidade, é a de que o planeta e os recursos naturais são infinitos. As sociedades da globalização vivem na ilusão do crescimento económico infindável num planeta finito e com recursos finitos. Para manter as estruturas económicas a funcionar precisamos de taxas de crescimento elevadas (na ordem dos 5% ao ano) o que conduz a incremento do consumo dos recursos naturais, a maioria dos quais não renováveis, e por isso finitos, como é o caso dos combustíveis fósseis e dos metais.
As perceções que acabei de referir, ainda que profundamente disseminadas, são não só enviesadas por um contexto cultural muito específico como criticadas e refutadas pelas visões mais atuais ciência. O planeta é finito e muitos dos recursos que usamos não são renováveis. E não, a selva não é um local onde a selvajaria e a competição imperam; de facto as relações de simbiose sobressaem, com forte primazia e importância fundamental, nos organismos e no ecossistema. Uma selva (ou floresta, se preferir) é um complexo ecossistema resiliente que sobrevive devido às relações simbióticas de partilha entre as diferentes espécies; de forma idêntica, um organismo é o habitat de inúmeras espécies sem as quais não poderia sobreviver.
Por que razão estamos a abordar estes assuntos no contexto de um artigo sobre economia. A questão é que os discursos sociais instalados (hegemónicos), constroem a realidade onde se desenrolam os eventos sociais. Serão, com certeza, diversas, as sociedades onde se olha o mundo não humano como uma extensão da própria humanidade com valor intrínseco ou onde este é visto como um mero recurso a explorar. É neste contexto que me proponho a discutir a validade do discurso hegemónico que constrói as mundividências de senso comum e as suas consequências na organização social e económica social.
Como já referi, o conhecimento que a humanidade obteve sobre o planeta e o universo, ao longo do século XX, refuta as perspetivas — com raízes nas tradições judaico-cristãs e sustentadas pelas teorias da ciência moderna — de que a humanidade é essencialmente diferente das outras espécies e da possibilidade de domínio do mundo não humano por via do saber científico e da tecnologia. A ciência hodierna, recusa a leitura positivista da modernidade e reconhece o caráter hermenêutico dos saberes que produz, a incerteza das previsões que faz e, consequentemente, a impossibilidade de controlo do sistema Terra; compreende a complexidade do sistema global e a imprevisibilidade das consequências que uma perturbação pode ter.
A perceção tradicional, subjacente à cultura das sociedades atuais colonizadas pelo positivismo da modernidade europeia, denota uma das múltiplas facetas da crise de perceção. O discurso hegemónico teima, por via dos discursos políticos veiculados (propagandeados?!) pelos mass media, em perpetuar a cultura positivista que valoriza o expertise e desvaloriza a participação democrática e a construção de propostas e soluções participativas e colaborativas. A valorização do expertise assenta na presunção da legitimidade dos pressupostos metodológicos subjacentes à construção do conhecimento científico e, consequentemente, à certeza (também esta positivista) dos conhecimentos assim produzidos como sendo uma leitura objetiva e vinculativa do real. Deste modo, e tocando no tema central desta reflexão, a crise económica, só pode ser interpretada e explicada por peritos que frequentemente pululam (poluem?!) em programas de televisão fornecendo verdadeiras lavagens cerebrais ao cidadão menos crítico.
Farei aqui uma pausa para sintetizar as perceções em crise que discuti até aqui e as que irei discutir adiante. Assim, as diferentes crises de perceção que identifiquei até aqui são: (1) a da natureza organizativa do mundo não humano através da sobrevalorização das relações de competitividade e da desvalorização das relações simbióticas; (2) a das relações sociais que resulta da aplicação de um isomorfismo da perceção do mundo não humano ao mundo humano valorizando em consequência a competitividade em detrimento da colaboração; (3) a crise da perceção da natureza da principal instituição produtora de conhecimento — a ciência — que é vista como construtora de uma leitura fidedigna e objetiva do real. Falta discutir (1) as consequências destes enviesamentos na perceção da organização económica e (2) as suas implicações para o mundo humano e não humano e para as propostas de solução da crise.


Parte 3

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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