Pensatempos

Orlando Figueiredo

Valor intrínseco e economia: da perceção da crise à crise da perceção (Parte 1/6)

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Artigo de opinião publicado no website do PAN a 3 de Agosto de 2012.

A crise tem sido um dos temas da ordem do dia nos anos mais recentes. Saber que o seu desenvolvimento se deu num contexto em que os governos e os estados-nação perdem poder face aos interesses unilaterais e ditatoriais dos mercados, conduz-nos ao questionamento da origem da crise. Se, por um lado, a reflexão sobre as formas de sair da crise económica se mostram pertinentes e inadiáveis, a compreensão do que está na origem da crise poderá ser um forte impulso no desenho destas soluções; contudo, para compreender as origens da crise teremos de discutir a mundividência que está subjacente às sociedades globalizadas onde esta se desenvolve. Esta forma particular de olhar o mundo tem as suas raízes na modernidade europeia e acentua-se com o surgimento e o desenvolvimento da revolução industrial. Associada às visões mecanicistas da ciência suportadas pela física newtoniana e pela racionalidade cartesiana, a modernidade olha o mundo como um mecanismo onde é possível, conhecendo os valores das variáveis do estado inicial, prever estados futuros concretos e objetivos. A única incerteza que daqui advém deve-se à falta de rigor dos instrumentos de medida; nunca a comportamentos inesperados do sistema ou à impossibilidade de os modelos teóricos contemplarem todas as variáveis em jogo; os modelos teóricos são tidos como uma leitura objetiva e inequívoca do real.

A adicionar a este universo mecânico surge a interpretação enviesada das teorias evolucionistas propostas de Charles Darwin, no século XIX. A ideia de sobrevivência do mais apto acaba por se transformar na sobrevivência do mais forte e institucionaliza a competição como forma de organização social. No paradigma competitivo desenvolve-se uma ideia bélica do mundo onde, não existindo outras alternativas, é preferível comer a ser comido. A competitividade assume formas múltiplas no contexto da organização social e, no século XIX, torna-se o sustento do sistema capitalista que assola o sistema económico global e começa na escola onde os alunos são encorajados a competir pelas melhores notas para conseguirem lugares nas melhores universidades que lhes fornecerão as melhores ferramentas para serem mais competitivos e conseguirem sucesso no desempenho das suas funções profissionais; a centralidade é sempre colocada no indivíduo e as ferramentas que ele apropria ao longo da sua vida académica destinam-se a torná-lo mais forte na competição com os seus pares e a sociedade onde se insere mais forte que as restantes sociedades globais. O isomorfismo de ideias entre a organização do mundo não humano e do mundo humano está bem patente. No mundo não humano o senso comum vê, somente, o leão que persegue a gazela, os abutres que disputam o melhor pedaço da carcaça ou o macho mais forte a conseguir copular com um maior número de fêmeas e a deixar os seus genes um maior número de descendentes que os seus rivais. Talvez a ideia isomórfica que mais contaminou o senso comum seja a da selva urbana ou selva de betão, que confere o significado de ambiente hostil e competitivo às comunidades urbanas e usa o termo selva em analogia com o ambiente da selva original

O paradigma competitivo, em que as sociedades globalizadas, operam vê o mundo não humano como um local imperfeito, pouco eficiente que é preciso arranjar e gerir de forma a melhorar a sua eficiência, do ponto de vista humano, claro, e a tecnociência é o instrumento que permite tal correção. A metáfora da batalha e da luta faz-se sentir um pouco em todos as áreas dos saberes e manifestações sociais. Se olharmos para a medicina, por exemplo, a doença é vista como um mal a combater, um inimigo que põe em causa os nossos interesses. Não estou a colocar em causa a necessidade de tratamento e cura em caso de doença; o que questiono é a perspetiva bélica subjacente ao conceito de doença. Noutros contextos culturais, menos colonizados pela perspetiva da ciência moderna, em particular nas mundividências orientais tradicionais, a doença não é vista como um mal a combater, mas como uma desarmonia de um corpo que necessita de re-encontrar o equilíbrio.


Parte 2

Autor: Orlando Figueiredo

| Professor | Investigador | Ecologista | Ativista | Aprendente do mundo |

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